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BLUE NOTE
História
de Biu ilustrada por Shiko
Paraíba:
2006 (presumível), 108p.
19,5x28cm.
Aquisição
com o autor:
derbyblue@yahoo.com.br
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Blue
Note. Uma
história de Biu ilustrada por Shiko |
J.
Audaci Junior
A obra (fono)gráfica dos paraibanos é
para ser lida em volume alto, sem dançar, pois requer muita atenção
aos seus sentidos. Evidente que muitos dos ouvintes vão ensaiar
umas batidas rítmicas com o pé quando folheá-la e outros tantos
irão detestar suas músicas, acordes e presunção.
A prosa
musical de Biu Ramos nos leva inicialmente a Rio Tinto, município
interiorano da Paraíba. O próprio compositor nos apresenta o
lugar, em tom panfletista, que resulta em “música de elevador”,
já que a cidade é um estereótipo de canção-que-sabemos-de-cor
como diversas espalhadas por aí, com sua pobreza e problemas sócio-econômicos
que vemos sempre nos noticiários. Mas o que interessa saber é que
o autor quer escapar de tudo isso e as próximas faixas do LP gráfico
melhoram de tom, com histórias e personagens atípicos que se
emaranham tentando formar um todo.
Referências
cinematográficas são apresentadas engenhosamente como trilha
sonora, ao exemplo dos pernambucanos Cinema, Aspirinas e Urubus
e Amarelo Manga, apesar deste último ter uma cena totalmente
xerocada (a da boceta galega), dando sensação de déjà-vu,
nada mais. Além dessas, menções de quadrinhos, literatura, música
e do cotidiano de seus autores sobem ao palco.
Por
vezes as canções ficam desarmônicas, apesar do hábil jogo de
fragmentação de algumas ações. Blue Note é
complexo para ouvidos desacostumados, sim! Mas existem momentos que
o compasso dos músicos (texto/arte) não alcança a mesma nota,
como peças de quebra-cabeças mal montadas, desconexas,
desajeitadas quando se vê o todo da sonoridade. São
pensamentos à deriva, que têm andamento lento e melancólico (bem whertiniano)
a cada virada de página ou a cada recordatório lido em longura,
como o ritmo sincopado de fox-blues. Às vezes confunde (quem
narra agora? O projétil?) e enfastia pelo excesso idiossincrático,
individual, de introspecção mesmo.
Shiko,
com seus virtuosos traços de vinila grafítico, prensa
seu estilo ao longo da celulose com poucos arranhões, que são
conseqüências da montagem diagramática e do tempus fugit
de diversos ensaios. Segundo o quadrinhista e co-roteirista,
centenas de páginas tinham que ser adaptadas para ser um só álbum
e não uma coletânea. Acompanhei esses ensaios e fica o desgosto
observar que muitas faixas criativas foram deixadas de fora -
parcial ou não - como a trepada formada por onomatopéias.
Inconformismo
e erotismo. Deus e o diabo. Bares e blues. Bonecas infláveis
striper e robôs trompetistas. Resignação e morte. Sei lá,
mil coisas. Blue Note é um caleidoscópio que
merece “nota azul” na revista de crítica de música, mesmo com
suas variações melódicas e descompassos.
Como
uma banda independente, o LP gráfico foi lançado por intermédio
de uma Lei de Incentivo Cultural do Estado merecidamente. Um portfólio
de luxo para Shiko. Um moderado début para Biu. Quem
quiser escutar Blue Note, basta entrar em contacto com
a Comic House
e preparar o volume para o concerto.
Publicado
originalmente em http://euodeioissoaqui.zip.net
em 06 de abril de 2007.
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