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O
Cãozinho e o crocodilo
Luciano
Irrthum é uma personalidade bastante atuante no meio dos quadrinhos
independentes. Sua participação é profícua, tendo trabalhos
publicados em inúmeras publicações, a exemplo do fanzine Top!
Top! (nº 8, jul. 1998), onde figurou com capa, quadrinhos e
entrevista. Por outro lado, tem editado seus próprios fanzines, ou
revistas autorais, com o capricho que lhe é peculiar. Uma de suas
publicações mais renomadas foi Scabs, revista em grande
formato e capa colorida, lançada em meados da década de 1990.
Estivéssemos
num país decente, o trabalho de Luciano teria o destaque que tanto
merece. O complexo de inferioridade de nossas elites – leia-se,
dos grandes editores nacionais – não lhes permite enxergar o
inestimável valor de nossa cultura, sobretudo da cultura popular.
Dominados pela ambição e lucro fácil e garantido, são cúmplices
da massificação cultural hegemônica estadunidense.
O
trabalho de Luciano não tem nada dos super-heróis egocêntricos do
olimpo erigido pelo império do norte. Suas histórias em quadrinhos
são comumente intimistas e bizarras, tratando da angústia e dos
desencontros humanos, por vezes adentrando o pantanoso território
da escatologia. De toda forma, ele é sempre provocador e
instigante,
rompendo com a indiferença e passividade do leitor, levando-o a uma
leitura crítica.

As
histórias em quadrinhos, em particular as dirigidas ao público
jovem, em sua maioria pecam pela superficialidade dos argumentos e
pelos roteiros mal construídos. Isto se deve ao amadorismo e à
precariedade do embasamento cultural de seus autores. Todavia, os
quadrinhos independentes, que insistem em se mostrar em evidência
no país, têm contado com alguns artistas que se contrapõem a essa
máxima. As adaptações de grandes autores da literatura universal
para os quadrinhos são uma prova inconteste da ousadia desses
quadrinhistas. Dentre eles, destaca-se o trabalho de Luciano Irrthum.
É dele a adaptação de alguns contos de Edgar Allan Poe e
poesias de Baudelaire e Augusto dos Anjos, autores com os quais se
identifica em sua cosmogonia.
No
que concerne à parte gráfica, o trabalho de Irrthum busca renovação
e experimentação permanentes. A expressividade das personagens e o
virtuosismo do traço promovem uma fusão do expressionismo com a
estética underground. As garatujas plenas de hachuras se
transformam em linguagem no traço do autor, criando verdadeiros
painéis ricos em detalhes que nos levam a considerá-lo, ao lado de
Lourenço Mutarelli, um dos mais expressivos da arte seqüencial
brasileira.
O
cãozinho e o crocodilo é uma história que
falsamente dá indícios de um abrandamento da força explosiva de
Irrthum, mas apenas num primeiro momento, pela sugestão enigmática
do título. Sua leitura revela um conto surreal repleto de mistério, com
um desfecho surpreendente próprio do estilo dos contos. Inspirada em um
sonho intrigante, O cãozinho e
o crocodilo poderia ser
considerada como um conto ilustrado, não fosse esta definição um
limite ao verdadeiro amálgama de textos e imagens que forma as histórias
em quadrinhos. Temos, portanto, uma história em quadrinhos na
acepção exata do termo, com sua narrativa densa, enxuta e precisa, cujo
domínio Luciano Irrthum tem procurado sempre expressar.
Hm
O
cãozinho e o crocodilo
Luciano
Irrthum
Coleção
Corisco, nº 1, 2ª ed.
João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2006. 28p. 14x20cm. R$6,00
ISBN
85-87018-65-5
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