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Entrequadros
A
história dos quadrinhos no Brasil é uma história de resistência e
luta. A busca identitária de seus personagens (a maioria desenraizada de
sua cultura natal ou simulacros de personagens estrangeiros), esbarra no
desinteresse dos leitores, adestrados pela indústria cultural, e
particularmente no descaso das editoras, que investem num mercado de lucro
fácil.
Os
autores, por sua vez, ressentem-se de um espaço próprio para sua expressão
e desenvolvimento. Sem investimento não há produção, sem produção não
há amadurecimento. O que esperar, então, da formação dos autores
nacionais? O objetivo de se chegar ao mercado parece que não há
perspectiva, embora o mercado seja o caminho natural para a cultura de
massa.
Muitas
iniciativas já foram tentadas para se encontrar o espaço de visibilidade
e profissionalismo para nossos quadrinhos, de leis que garantam uma
reserva de mercado à formação de cooperativas, da fundação de
pequenas editoras à bravura do mano-a-mano, com a venda direta aos
leitores, bem no estilo e estratégia da geração mimeógrafo.
Trilhando
seu próprio caminho, temos uma legião de novos autores que só conseguem
se mostrar por intermédio da edição de fanzines e edições
independentes. Cada vez mais prolíferas, essas publicações enfrentam o
desafio da descontinuidade, do círculo de iniciados e o limite das
pequenas tiragens, que não propiciam aos autores mais que as contingências
da produção amadora.
Malgrado
os percalços do mercado, em termos de conteúdo os quadrinhos brasileiros
são abrangentes, indo do universo infantil das personagens de Maurício
de Sousa – único investimento dos quadrinhos de massa nacionais que
realmente funcionam – ao filão do terror, de décadas passadas; da ficção
científica a super-herói, da cultura popular e regional ao humor. Um
universo criativo tão amplo merece uma reflexão aprofundada que aponte
as razões para seu ostracismo e, principalmente, para a compreensão da
força que move sua visceral resistência.
É
a partir desses questionamentos que Wellington Srbek, pesquisador exímio
que dedicou seu mestrado e doutorado à investigação sobre as histórias
em quadrinhos, realiza uma série de entrevistas com autores brasileiros
representativos de vários momentos de criação e processos de produção,
traçando um importante painel não só histórico e raro, mas, sobretudo, por
instigarem a reflexão.
Num
país onde a leitura é um hábito elitizado, um livro com entrevistas
sobre quadrinhos, um assunto ao mesmo tempo popular e marginalizado, é
uma proeza que mostra bem o quanto se tem ainda a trilhar para que se
atinja um estágio razoável de reconhecimento e valoração de uma arte
secular.
Hm
Entrequadros:
algumas entrevistas sobre quadrinhos
Wellington
Srbek
Coleção
Quiosque nº 5
João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2004. 64p. 12x18cm. R$10,00
ISBN
85-87018-36-1
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