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Humor
em pílulas
O
humor esteve na gênese dos quadrinhos, que surgiram em várias
partes do mundo com a disseminação da imprensa, em meados do século
XIX. Fazendo sátiras políticas e de costumes, algumas séries e
personagens se tornaram célebres e foram referências para outras
criações, a exemplo de Monsieur Vieux-Bois, do suíço
Rodolphe Töpffer, em 1927, de Max und Moritz, do alemão
Wilhelm Busch, em 1865, dos Katzenjammer Kids (Sobrinhos
do Capitão), do norte-americano Rudolph Dirks, em 1897 e de As
aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma viagem à Corte, do
ítalo-brasileiro Angelo Agostini, em 1869. No entanto, foi com a
criação de Mutt & Jeff, por Bud Fisher, em 1907, que as
histórias em quadrinhos humorísticas ganharam seu formato
preferencial, as tiras diárias, predominante até hoje.
A
criação das tiras, publicadas regularmente nos jornais,
impulsionou a massificação dos quadrinhos por intermédio dos syndicates,
as distribuidoras norte-americanas, que passaram a exportá-las para
todo o mundo. A compilação das tiras deu origem aos comic books,
ou revistas em quadrinhos.
Se
por um lado os syndicates ajudaram a propagar as histórias
em quadrinhos pelo mundo, por outro foi um fator inibidor das
expressões locais, pelo poder de massificação que engendram,
oferecendo um produto de muito baixo custo. A imprensa brasileira se
dobrou a essa força sedutora da indústria cultural,
disponibilizando aos leitores uma plêiade de personagens já
famosas em sua terra de origem. Junto com as personagens, um esquema
avassalador de produtos derivados contribui para tornar esses seres
imaginários entidades onipresentes, ganhando status de quase
figuras reais. Junto com os quadrinhos são lançados filmes, álbuns
de figurinhas, desenhos animados, bonecos, camisas, cadernos e todo
tipo de produto industrial para o deleite do leitor e colecionador.
A
esta força impetuosa, os autores locais respondem com o que lhes é
mais caro, sua identidade. Os quadrinhos estrangeiros, para
possibilitar a massificação, utilizam uma linguagem universal. São
as piadas familiares, de costumes comuns às sociedades ocidentais,
de situações pitorescas que podem ser encontradas em qualquer
grupo social (o desempregado, o jogador, a criança traquina, as
relações de poder no lar). O humor local é trabalhado a partir de
um código lingüístico particular, pertencente aos que vivenciam
uma cultura ou situação determinada. Normalmente é um humor de
difícil tradução, pois requer o conhecimento de elementos
indissociáveis da vivência quotidiana.
Os
brasileiros exploram muito bem esse tipo de humor, impulsionados que
foram por uma situação limite. A propagação das tiras no país
se deu exatamente no período do regime ditatorial, entre as décadas
de 1960 a 1980, quando despontaram inúmeros cartunistas com tiras
de teor político, fazendo uma leitura crítica da realidade. Esse
tipo de humor não se restringiu às tiras de jornais, mas se
expressou na criação do jornal Pasquim, ícone de jornal
alternativo, questionador e humorístico, que por sua vez
influenciou um sem números de autores espalhados por todo canto do
país.
Se
temos um elenco memorável de personagens, como as impagáveis As
Cobras, de Veríssimo, Rango, de Edgar Vasques, O Pato,
de Ciça, O Menino Maluquinho, de Ziraldo, Chico Bento,
de Maurício de Sousa, Rê Bordosa, de Angeli, O condomínio,
de Laerte, Aline, de Adão Iturrusgarai, Níquel Náusea,
de Fernando Gonsales, Xaxado, de Cedraz, as tiras brasileiras
se ressentem ainda de um esquema de distribuição que as torne
efetivamente presentes em todos os estados. O sistema de distribuição
dos syndicates – que continua presente em nossos jornais
– foi tentado para a massificação de nossas tiras, mas as
iniciativas carecem de profissionalismo que as consolidem.
Fora
do meio comercial, outras manifestações são tentadas pelos novos
autores, com a edição de seus fanzines e a publicação das tiras
nos jornais de suas cidades. São meios de se fazer conhecer, de
difundir, ainda que precariamente, a produção realizada fora dos
centros industriais do país. Mesmo nesses centros, onde os jornais
vêm reduzindo a importância o interesse e pelas tiras, grupos de
artistas se reúnem em cooperativas para o lançamento de livros e
revistas. Esse tipo de produção independente é o caminho que se
apresenta como viável para o fomento e continuidade da criação
das tiras nacionais.
O
livro Humor em pílulas: a força criativa das tiras brasileira,
de Henrique Magalhães, trata desses assuntos relacionados às
tiras, captando o interesse crescente do meio acadêmico em seu
estudo. Sendo o autor também criador – com sua personagem Maria,
publicada por décadas nos jornais paraibanos e em revistas e álbuns
– sua preocupação se volta à pesquisa sobre o tema, bem como à
produção editorial à frente da editora Marca de Fantasia, que tem
uma coleção de livros de tiras.
Humor em pílulas:
a força criativa das tiras brasileiras
Henrique
Magalhães
Coleção
Quiosque nº 16
João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2006. 112p. 12x18cm. R$15,00
ISBN
85-87018-63-9
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