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O
Inquilino
Por
doze edições Marcelo Marat esteve à frente do fanzine O Inquilino,
numa investida rara no meio independente no Brasil: o planejamento de um
projeto editorial fechado, bem definido em seus objetivos e em sua
realização. Com O Inquilino, ele criou um veículo para o
aperfeiçoamento da tessitura do texto, para o desenvolvimento do roteiro
dirigido às histórias em quadrinhos. Mais que esse fim alcançado, Marat
ainda nos ofereceu a descoberta de excelentes jovens desenhistas.
O
Inquilino trouxe a cada número o traço de
diferentes desenhistas, que davam vida plástica aos roteiros de Marat. Dessa
forma, Marcelo dedicou-se a experimentar várias formas de contar histórias e
buscou na diversidade gráfica aquela expressão que melhor traduzia o clima
de seus roteiros.
Sem
dúvida, este foi um projeto muito interessante e também incomum nos
quadrinhos brasileiros. O espaço dos fanzines volta aí a sua gênese,
prestando-se essencialmente à busca de novas linguagens e ao descobrimento de
novos caminhos. Malgrado a enxurrada de fanzines e publicações independentes
que procuram apenas copiar os heróis da moda, há ainda quem se preocupe em
desenvolver um trabalho profundo e original.
Os
quadrinhos de Marcelo Marat podem ser lidos como contos, que fazem em
suas histórias curtas uma releitura do cotidiano em seus aspectos mais
peculiares, ainda que para isto ele tenha que fazer uso de, por vezes,
situações banais. Suas HQ tratam o ritmo próprio às grandes cidades de
forma tenra e por vezes crua, nos pequenos gestos, em atitudes corriqueiras,
na cumplicidade dos que buscam no outro a única saída possível para o
reencontro com uma humanização ameaçada.
Por
outro lado, é no aspecto voraz e desestruturador da metrópole que Marat
encontra o meio para trabalhar seus conflitos. A urbanidade, imbuída da
perversidade oculta, da ânsia existencial, do descaminho, torna-se então um
monstro devorador de almas.
Mas
que não se pense que as histórias que fazem O Inquilino resvalam para
o lugar comum ou cedem ao apelo fácil do sexo e da violência. Ainda quando
se trata da violência explícita, o leitor é levado a uma meditação
filosófica. Um exemplo pinçado da obra e que a representa de forma exemplar
é a história "A ajuda", onde um jovem, ao tentar socorrer uma
mulher em luta com seu marido, acaba se envolvendo no conflito e o mata. O mau
uso da mão que mata, mesmo que de forma não intencional, remete ao início
da história, à contemplação do jovem a um quadro de Rembrandt.
Vê-se
em "A ajuda" os ingredientes de uma boa HQ: história redonda, com
começo, meio e fim, mas não hermética; ao contrário, ela nos leva a voltar
ao início numa retomada de seu processo narrativo e à reflexão sobre as
referências utilizadas. Se a HQ está centrada em ações e situações bem
delineadas, sem exageros nem omissões, ao mesmo tempo esta releitura abre
caminho para subjetivações.
É
justamente o domínio narrativo com a possibilidade de reflexão e diversas
interpretações que caracterizam a obra aberta, poética, transgressora e,
por que não, revolucionária. Com O Inquilino,
Marcelo Marat, de forma
transparente, nos revela seu processo criativo demonstrando de forma prática
as teorizações sobre a construção de roteiro apresentadas de forma
homeopática nas edições de seu fanzine. HM
O inquilino
Marcelo
Marat & Emanuel Thomaz
João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2003. 64p. 17x24cm.
EM FALTA
ISBN
85-87018-24-8
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