katita: tiras sem preconceito

 

Nas formas de expressão artística em geral e nas Histórias em Quadrinhos em particular, pode-se identificar dois tipos de comportamento do autor em relação à obra produzida. Num primeiro tipo, o autor submete o tema à obra, num segundo, submete a obra ao tema. Explicando melhor, ao realizar uma obra, um autor pode partir de um tema e, à medida que o desenvolve, pode mudá-lo, modificá-lo, mesmo alterá-lo drasticamente, se achar que isto tornará a obra melhor. Neste caso, a obra prevalecerá sobre o tema. Mas um autor pode ter um comportamento oposto, partir de um tema que lhe é caro, e ao realizar sua obra, manter a todo custo a integridade do tema. Este é o caso de autores que mantêm algum tipo de militância e cuja obra é veículo para a difusão de suas idéias.

 

Henfil declarou em uma entrevista que era primeiro um político e depois um artista. Suas HQs, cartuns e charges tinham função fundamentalmente política, seu objetivo era participar ativamente do processo de mudança política do Brasil. Mesmo se impondo esta restrição, Henfil soube criar uma obra de grande valor artístico. E este é o grande desafio do artista que privilegia o tema: produzir uma obra de arte.

 

Anita Costa Prado há algum tempo é militante das causas homossexuais, em particular do feminino, contra os preconceitos de toda espécie, e tem se expressado como escritora, poeta, incentivadora cultural. Dentre suas várias atividades, criou uma personagem, a Katita, e tem batalhado pela sua difusão nas mais variadas formas, desde ilustrações, camisetas, até as tiras de quadrinhos. Para a realização das tiras, Anita buscou parceria para os desenhos, que já foram feitos por outras pessoas, e atualmente encontrou em Ronaldo Mendes o artista ideal, com um traço bem definido e agradável e com grande capacidade de produção. Nas tiras que escreve, Anita assume que privilegia o tema, ou seja, suas tiras são o veículo para sua militância. Esta opção, que é consciente, tem seu pró e seu contra. Ao tratar diretamente dos vários aspectos relacionados ao tema central, Anita fala com mais eficácia aos leitores que se interessam pelo assunto. E não apresenta maior atrativo para os leitores que não têm interesse especial pelo tema. Com isso restringe seu universo de leitores, embora dialogue melhor com este público. Uma vez que o público a que se dirige está bem definido, Anita se permite ser direta, explícita, às vezes doutrinadora, às vezes panfletária, pois é isto que o público espera.

 

No entanto, muitas vezes, mesmo mantendo o tema como prioridade, Anita não escapa de produzir tiras de interesse geral, onde o humor, a sacada inteligente se sobressai. Estas tiras podem ser usadas para estabelecer contato com o leitor comum, aquele que busca a leitura de uma tira apenas para o entretenimento, para a diversão. Para a publicação em veículos de maior circulação, com um público bastante heterogêneo, este requisito precisa ser observado. E neste caso é preciso bastante cuidado para que a força da mensagem não seja perdida. Não à toa Ferreira Gullar dizia: “Traduzir uma parte na outra parte, que é uma questão de vida e morte! Será Arte?”

Edgard Guimarães

 

 

   Katita: tiras sem preconceito   

Anita Costa Prado & Ronaldo Mendes

Coleção Das tiras coração nº 13

João Pessoa: Marca de Fantasia, 2006. 52p. 14x20cm. R$8,00

ISBN 85-87018-61-2


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