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Macambira e sua gente

 

 

 

 MACAMBIRA E SUA GENTE 

Henrique Magalhães

Coleção Das tiras coração  nº 15

3ª edição

João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008, 60p, 14x20cm

ISBN 978-85-87018-80-9

R$10,00

Macambira e sua gente... diferente

 

 

Há públicos diferentes para diferentes séries de História em Quadrinhos no formato tira. Parece não haver novidade nenhuma nessa afirmação. Mas vou me restringir a um aspecto específico da expectativa do leitor em relação à leitura de uma tira.

 

Há um tipo de leitor que busca, em sua tira preferida, encontrar algo que seja familiar, algo que lhe dê o “conforto do conhecido”. É claro que é preciso que cada tira tenha uma piada diferente, mas não pode ser muito diferente, é preciso se manter dentro da expectativa do leitor. A sensação de familiaridade deve ser preservada. Tiras famosas como Garfield, por exemplo, se encaixam nesta categoria. O leitor de Garfield sente satisfação em ler, periodicamente, uma tira em que o gato diz que odeia a segunda-feira. Esta repetição exaustiva corresponde à expectativa deste leitor. Mesmo que a piada em si não tenha graça, a simples repetição de uma situação conhecida, às vezes com pequenas alterações, satisfaz este leitor. Este recurso da repetição pode ser usado de uma maneira mais elaborada, às vezes com resultados muito bons. Goscinny usava este recurso em várias séries que escreveu. Astérix sempre terminava com um banquete na aldeia dos gauleses. Lucky Luke sempre acabava com o herói cantava sua musiquinha em direção ao poente, e assim por diante. Nos programas humorísticos televisivos, feitos de esquetes, a regra geral é o uso de um bordão que se repete sempre, para alegria dos espectadores.

 

Há, no entanto, outro tipo de expectativa perseguido por um tipo diferente de leitor. Há um leitor que, ao ler uma tira, quer ser surpreendido, quer encontrar o inesperado, ou ainda, quer ser contrariado em sua expectativa. Este leitor quer justamente conhecer coisas novas e corre o risco de entrar em ambientes não familiares. Aquela sensação de conforto é substituída pela sensação de descoberta.

 

Na série Macambira e sua gente, Henrique Magalhães escreve para este segundo tipo de leitor, mais crítico, mais exigente. Os personagens da série são tipos que freqüentemente são discriminados pela sociedade, seja pela opção sexual, seja pela opção profissional, seja pela opção religiosa. E embora o universo tratado na série não seja o usual nas tiras de quadrinhos, o que torna esta série diferente é a maneira como Henrique imprime personalidade em seus personagens. Macambira, Rico, Anegadu, Lelê, Maçola, entre outros, são personagens com personalidades bem construídas, com comportamentos coerentes, mas capazes de surpreender com suas atitudes. Ler uma tira de Macambira é ir ao encontro do desconhecido, é não prever o desfecho da aventura, ou talvez seja, simplesmente, conhecer gente nova, fazer novas amizades.

 

Macambira certamente é uma série diferente que pede sua apreciação a um leitor diferente. Que entenda a diferença.

Edgard Guimarães

 

 

 

 

Macambira: a questão homossexual pelo viés do humor

 

O mundo dos quadrinhos é predominantemente machista, seja no que tange seus autores, seja em suas produções. São raros os exemplos de cartunistas a enfocar a feminilidade ou mesmo a homossexualidade, temáticas que são verdadeiros tabus entre seus pares. Neste meio, a mulher é comumente um objeto de desejo sexual, o gay sempre um motivo de chacota, um reforço ao ridículo e ao execrável. Por seu lado, os cartunistas gays se contam nos dedos, ao menos os que se afirmam claramente.

 

No universo criativo de Henrique Magalhães seus personagens sempre trataram as questões existenciais de forma a realçar o lado mais humano, mais sensível, ou no mínimo se permitindo o recurso da dúvida quanto às escolhas sexuais, como ocorre eventualmente com as personagens Maria e Pombinha. Consideradas por muitos leitores como personagens lésbicas, elas na verdade abordam a questão como parte da problemática das relações humanas e sociais, não assumindo de forma decisiva uma postura nesta direção.

 

Henrique nunca escondeu sua identidade homossexual, tendo participado da militância organizada na Paraíba, no início dos anos 1980, contra todo tipo de discriminação. Seu trabalho com os quadrinhos não poderia, evidentemente, passar ao largo dessa questão inquietante e tão em evidência nos dias atuais. Ao construir a personagem Maria de forma tão abrangente, sentiu-se quase que na obrigação de criar outras figuras que expressassem o universo homossexual de maneira mais específica e incisiva.

 

As tiras de Macambira e sua gente, publicadas em meados da década de 1990 no jornal diário O Norte, de João Pessoa, Paraíba, vieram atender a essa expectativa não só dos leitores, mas, sobretudo, do próprio autor. Macambira, Rico e Maçola formam um grupo de amigos que tratam sob os mais variados ângulos a questão homossexual pelo viés do humor. A militância do autor, que nesta série se coloca curiosamente como a personagem Rico, deu-lhe a segurança e a propriedade para abordar certos pontos nevrálgicos do universo homossexual, jogando mesmo com os clichês, que em outros autores facilmente descambariam no preconceito e na grosseria.