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Macambira
e sua gente
O
mundo dos quadrinhos é predominantemente machista, seja no que
tange seus autores, seja em suas produções. São raros os exemplos
de cartunistas a enfocar a feminilidade ou mesmo a homossexualidade,
temáticas que são verdadeiros tabus entre seus pares. Neste meio,
a mulher é comumente um objeto de desejo sexual, o gay sempre um
motivo de chacota, um reforço ao ridículo e ao execrável. Por seu
lado, os cartunistas gays se contam nos dedos, ao menos os que se
afirmam claramente.
No
universo criativo de Henrique Magalhães seus personagens sempre
trataram as questões existenciais de forma a realçar o lado mais
humano, mais sensível, ou no mínimo se permitindo o recurso da dúvida
quanto às escolhas sexuais, como ocorre eventualmente com as
personagens Maria e Pombinha. Consideradas por muitos
leitores como personagens lésbicas, elas na verdade abordam a questão
como parte da problemática das relações humanas e sociais, não
assumindo de forma decisiva uma postura nesta direção.
Henrique
nunca escondeu sua identidade homossexual, tendo participado da
militância organizada na Paraíba, no início dos anos
1980, contra todo tipo de discriminação. Seu trabalho com os
quadrinhos não poderia, evidentemente, passar ao largo dessa questão
inquietante e tão em evidência nos dias atuais. Ao construir a
personagem Maria de forma tão abrangente, sentiu-se quase
que na obrigação de criar outras figuras que expressassem o
universo homossexual de maneira mais específica e incisiva.
As
tiras de Macambira e sua gente, publicadas em meados da década
de 1990 no jornal diário O Norte, de João Pessoa, Paraíba,
vieram atender a essa expectativa não só dos leitores, mas,
sobretudo, do próprio autor. Macambira, Rico e Maçola
formam um grupo de amigos que tratam sob os mais variados ângulos
a questão homossexual pelo viés do humor. A militância do autor,
que nesta série se coloca curiosamente como a personagem Rico,
deu-lhe a segurança e a propriedade para abordar certos pontos nevrálgicos
do universo homossexual, jogando mesmo com os clichês, que em outros autores facilmente descambariam para o preconceito e a grosseria.
Macambira
e sua gente
Henrique
Magalhães
João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2ª ed, 2003. 52p, 17x24cm. R$10,00
ISBN
85-87018-26-4
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