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Marginal
Desde
a década de 1970, quando surgiram no cenário dos quadrinhos
paraibanos alguns dos hoje renomados autores, a exemplo de Deodato
Filho e Emir Ribeiro, não se tinha o lançamento de uma obra tão
expressiva e inquietante. Shiko, ou Francisco José de Souto Leite,
nascido em Patos em 24 de março de 1976, chega com suas histórias
para provocar o leitor, levando-o necessariamente à reflexão.
Seguindo
o mesmo e exclusivo caminho dos jovens autores nacionais, Shiko
buscou nos fanzines seu próprio espaço pra publicação. Desde
1997 ele edita o fanzine Marginal, do qual saíram oito edições. As HQ deste volume são
uma compilação de algumas das melhores histórias publicadas nesse
fanzine.
Apesar
da qualidade gráfica e textual do trabalho de Shiko, ele continua
desconhecido além do circuito independente. Arredio ao mercado,
desgarrado de qualquer instituição ou oficialidade, Shiko tem
buscado o espaço alternativo dos fanzines para desenvolver sua obra
com toda a liberdade e experimentação.
Autoditata,
Shiko armazena uma bagagem cultural invejável. Desde cedo lia os clássicos
da literatura mundial, de Rimbaud e Baudelaire a Marx, com predileção
por biografias. Esse ecletismo lhe proporcionou descobertas de
mundos jamais imaginados.
Além
da leitura, mais três coisas lhe são essenciais: a música, o
desenho e a rua. Da literatura e dos quadrinhos europeus captura as
influências em seus quadrinhos. A música cria o clima para suas
histórias, a cultura beat
lhe serve de referência temática, a observação cuidadosa das
ambientações da rua, dos hábitos, do vestuário, trazem elementos
que enriquecem seu universo ficcional.
Considera
os quadrinhos europeus como o que há de melhor, pela densidade dos
personagens e elaboração das histórias. Admira também a HQ
japonesa, que consegue de forma excepcional dar ritmo e dinamismo em
suas seqüências e enquadramentos. Gosta de Frank Miller e da
descontração dos quadrinhos ingleses. Aprecia o trabalho de
Moebius. Dos quadrinhos nacionais, Watson Portela e Mozart Couto lhe
são memoráveis. Dos roteiristas, destaca Jean Danton e José
Duval. Desse caldo de tantas origens e tendências, confessa que sua
maior influência vem mesmo dos quadrinhos nacionais.
Shiko
apresenta processos de produção diversos, dependendo da situação
e dos condicionamentos para a criação. Em geral, tem uma idéia básica
da HQ, que vai desenvolvendo gradativamente, rabiscando o roteiro ao
mesmo tempo em que desenha os personagens. Às vezes faz um único
desenho que o impressiona e a partir deste passa à elaboração de
uma história.
A
expressão poética dos quadrinhos de Shiko, repletos de referências
e inspirações literárias associadas a um traço impressionista,
faz de seu trabalho um oásis em meio a tanto pastiche produzido
pelos jovens autores nacionais. Além de quadrinhos, Shiko produz
story board, ilustração de livros e publicitária. Apesar do
reconhecimento de seu trabalho no meio gráfico paraibano, com uma
autocrítica aguçada, Shiko acha que seu trabalho está apenas começando,
o que nos parece um ótimo sinal. HM
Marginal
Shiko
João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2006. 52p. 14x20cm. R$8,00
ISBN
85-87018-58-2
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