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Maria:
espirituosa há 30 anos

Há
três décadas a personagem Maria fez sua primeira aparição na
imprensa paraibana, nos jornais diários e suplementos. Em seguida, ganhou
sua própria revista independente, circulou nos fanzines, livros e álbuns.
Tanta longevidade é algo raro para os quadrinhos brasileiros, que sofrem
com o descaso do mercado editorial.
O
percurso de criação de Maria não foi, de todo modo, tranqüilo.
Sua produção foi permeada por sobressaltos, por períodos de inércia
forçada, de quase esquecimento provocado pelo desinteresse e falta de
sensibilidade dos editores dos jornais e pela extrema limitação do meio
independente.
Os
30 anos da personagem não poderiam transcorrer num momento menos crítico.
Há quase uma década nenhuma tira de Maria é publicada nos
jornais diários paraibanos, onde por muitos anos teve presença
garantida, conquistando uma legião de leitores e admiradores de sua história
de luta e crítica bem humorada.
Nesse
período de oclusão, para manter viva sua memória, foi editado em 1998,
pela Marca de Fantasia, o álbum Maria: olhai os lírios do campo,
reunindo as tiras da fase de produção mais recente. Lançou-se também
duas edições da revista Maria Magazine, em 2001 e 2003,
reunindo não só as tiras da personagem, mas também o trabalho de vários
autores que circulam nos fanzines.

Maria
surgiu no bojo da
cultura alternativa, cultura de resistência a um contexto político de
exceção. Sua fonte de inspiração foi a efervescência política e
social do país, que lhe deu um caráter político semelhante à charge,
no início de sua criação. As primeiras tiras da personagem traziam o
grito contra o cerceamento político e intelectual, mas também a crítica
às desigualdades sociais e aos costumes conservadores arraigados.
Com
a publicação diária nos jornais paraibanos, Maria
pôde ser aprimorada no aspecto gráfico e na concepção do humor,
passando dos fatos políticos imediatos ao humor intemporal, da contestação
política explícita às contradições da política do quotidiano. Essa
transformação no perfil da personagem foi também um reflexo das mudanças
no país, com a Abertura política e a redemocratização. Nesse novo
ambiente, que teve seu ápice no início da década de 1980, novas questões
políticas e sociais viriam à tona. Outras políticas se tornariam o
enfoque favorito de Maria, como a luta das minorias por afirmação, a solidão nos
centros urbanos, os preconceitos diversos. Maria
tornou-se uma personagem em mutação, tendo como fio condutor a inquietação
frente aos valores estabelecidos.
Se
o momento não é tão favorável a comemorações, no entanto devemos nos
render a um fator que não pode ser menosprezado. Num país tão renitente
em esquecer suas crias, em apagar suas memórias, ter-se uma personagem de
quadrinhos com tanta resistência e permanência na memória afetiva dos
leitores é algo surpreendente e merecedor de homenagens. Este livro de Maria,
mais que uma homenagem e retrospectiva emotiva, aponta para a retomada da
criação da personagem em livros e revistas próprios.
Maria:
espirituosa há 30 anos
Henrique
Magalhães
João
Pessoa: Marca de Fantasia. 2005. 84p. 14x20cm. R$ 10,00
ISBN
85-87018-52-3
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