Top! Top! nº 21

 

Dono de um traço excepcional, que exprime em sua particularidade algo da arte primitiva, outro tanto das xilogravuras que ilustram os folhetos de cordel, a obra de Jô Oliveira é mais um testemunho do desprezo a que o país relega os grandes filhos de sua terra. Mais conhecido na Europa que no Brasil, a obra do quadrinhista e ilustrador pernambucano está repleta de brasilidade, seja contando histórias das agruras do nordestino, da luta entre jagunços, "macacos" e cangaceiros, do misticismo entranhado na cultura popular, seja revendo narrativas históricas.

 

A edição dedicada a Jô Oliveira traz uma longa entrevista com o autor, além de uma HQ que ilustra bem seu trabalho. Gazy Andraus faz uma resenha de "Hans Staden: um aventureiro no Novo Mundo", novo álbum de Jô Oliveira.

 

 

   Top! Top!  

Editor: Henrique Magalhães

João Pessoa: Marca de Fantasia, nº 21, outubro de  2006. 40p, 14x20cm. R$6,00

ISSN 1415-8558


Entrevista

 

 

 

Os quadrinhos guerreiros de Jô Oliveira

 

Durante o Salão Internacional de Humor de Teresina, em novembro de 2004, tivemos a chance de conviver com o quadrinhista e ilustrador Jô Oliveira, um dos mais autênticos e expressivos autores de quadrinhos brasileiros. Pouco conhecido em sua terra pelas novas gerações, Jô tem trabalhos publicados nas principais revistas em quadrinhos da Europa. Em seu trabalho a tônica é a presença marcante da cultura brasileira, suas histórias, seu traço inspirado nas xilogravuras das capas da literatura de cordel, de uma beleza poética e de uma personalidade pouco igualadas. No Brasil publicou o álbum A Guerra do Reino Divino, pela editora Codecri em 1976, reeditado recentemente pela editora Hedra, além de histórias em Versus Quadrinhos e Livrão de Quadrinhos (1977), ambos lançados pela editora do jornal alternativo Versus. Em 2005 teve o álbum Hans Staden: um aventureiro no Novo Mundo lançado pela editora Conrad, um primoroso trabalho analisado mais adiante por Gazy Andraus.

 

Jô nasceu em 1944 na Ilha de Itamaracá, Pernambuco, onde viveu até os cinco anos de idade. Posteriormente morou em Campina Grande até os 13 anos e um ano e meio em Mamanguape, na Paraíba. Daí foi para o interior de Pernambuco, para o Mato Grosso e para o Rio de Janeiro, de onde partiu para a Hungria. Desde 1975 vive em Brasília, onde produz história em quadrinhos e ilustrações para livros infantis e selos postais. Henrique Magalhães

 

Em que época e como se deu sua passagem pela Europa?

Desde quando morava em Campina Grande eu já tinha muito gosto pelo desenho. Com 14 anos, quando estava no Mato Grosso do Sul, descobri que existia a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Então me preparei e com 20 anos eu estava estudando na Escola de Belas Artes, como era meu sonho. Mas percebi que não era o que eu queria.

 

Eu tinha muita paixão por desenho animado e fiz, de forma amadora, alguns desenhos animados no Rio de Janeiro. Cheguei até a participar do festival JB-Mesbla, ganhei um prêmio de menção honrosa, e isso me deu oportunidade de ir a embaixadas procurar bolsas de estudo. Desse modo, consegui ir para a Hungria, onde fiquei por seis anos. Estudei desenho animado nos seis primeiros meses, mas vi que não tinha base técnica para desenvolver o trabalho. Passei então a freqüentar a Escola de Artes Industriais da Hungria. Estudei por um ano o idioma e depois Artes Gráficas, de 1969 a 1975.

 

Qual sua atividade profissional?

Ocupo-me apenas com desenho, não sei nem usar bem o computador.

 

Isso é impressionante! No Brasil, viver de desenho é algo fenomenal.

Em vivo de desenho em termos. Quando voltei para o Brasil fui morar em Brasília porque meus pais já moravam lá desde os anos 1960. Apesar do mercado restrito no Brasil – e na época era ainda mais - percebi que a única maneira de sobreviver era com o desenho. Eu consegui entrar numa autarquia do Ministério da Agricultura, onde passei toda a minha vida trabalhando como desenhista e me aposentei, há dois anos. Trabalhei como desenhista oficialmente, mas meus livros eu fazia à noite. Eu vivia de desenho, mas não era o desenho que eu vendia.

 

No campo das Artes Gráficas, qual a abrangência de seu trabalho?

Quando voltei ao Brasil, a primeira coisa que fiz foi procurar os Correios, porque eu tinha uma grande paixão por selos. Desde meu primeiro encontro levei projetos de selos fictícios que eu havia feito na Hungria e eles me aceitaram. No ano seguinte eu já tinha selos lançados no Brasil e desde então todos os anos eu faço um ou dois selos. No mais, faço ilustrações para livros infantis, já fiz mais de 20 deles. Fiz livros infantis com Lucila Garcês, esposa do cineasta paraibano Vladimir Carvalho; recentemente enveredei pela área do livro paradidático. Pela Ediouro, lancei livros sobre arte brasileira e arte em geral.

 

Você também pesquisa e escreve?

Quando faço quadrinhos eu ouso escrever. Fiz dois livros infantis com meus textos, mas evito escrever. Normalmente eu faço a história, mas chamo um profissional para escrever o texto.

 

A partir de quando você se interessou pelos quadrinhos?

Desde criança, quando vivia em Campina Grande, quando a gente ia ao Cine Capitólio trocar revistas. Os quadrinhos sempre tiveram uma presença marcante na minha formação. O cordel também foi muito importante, tanto que quando eu resolvi fazer quadrinhos eu juntei a linguagem gráfica do cordel com a narrativa dos quadrinhos.

 

Isso é uma coisa muito original nos quadrinhos.

É interessante. Era uma coisa diferente. Eu comecei a publicar na Itália antes de terminar o curso na Hungria. Eu achava que ia ficar rico. Imagina, como estudante eu já fazia capa de revista italiana! Mas foi pura ilusão.

 

Além das capas você publicou quadrinhos na Itália?

Publiquei duas histórias na revista Linus, que na época era uma das mais famosas. Depois as histórias foram publicadas em vários países, na Espanha, Dinamarca, Grécia. O curioso é que tenho uma história em quadrinhos em que Lampião fala grego!  

Na França saiu um livro sobre cangaceiros que ilustrei para um italiano com várias ilustrações coloridas, um livro grande que nunca foi publicado no Brasil.

 

O que você publicou no Brasil?

No ano seguinte a minha volta, Ziraldo, que eu tinha conhecido em 1973 no festival internacional de quadrinhos de Lucca, na Itália, juntou as três histórias que eu tinha feito até então e lançou um álbum pela editora Codecri, que editava o Pasquim. Antes disso, o jornal Versus, de São Paulo, pegou a primeira história que eu tinha publicado na Itália, traduziu para o português sem me conhecer e publicou como encarte do número 1 do jornal.

 

Você deve estar se referindo ao álbum A Guerra do Reino Divino e à edição de Versus Quadrinhos, este em formato tablóide, com a história “Os quatro cavaleiros do apocalipse”.

Exatamente. Essas histórias foram republicadas recentemente pela editora Hedra, de São Paulo, com o título A Guerra do Reino Divino. Também fiz outras histórias. A “Madeira Mamoré” foi publicada pela revista Corto Maltese. Depois fiz uma história de 64 páginas sobre Hans Staden, a partir de uma interessante pesquisa. Ela saiu em álbum pela editora Conrad, em preto e branco, apesar de o original ser colorido.

 

O trabalho colorido não sofre prejuízo com a reprodução em preto e branco?

Como eu também tinha um original em preto e branco, sugeri que acrescentassem tons de cinza, para o trabalho ficar mais interessante.

 

 

Cultura popular

 

Fale-nos de seu interesse em fazer quadrinhos inspirados na cultura popular.

Eu sempre tive um grande interesse pela cultura popular. Passei meus primeiros 15 anos de vida no Nordeste e isso foi muito marcante para mim. Não só o cordel, mas também os festejos populares, os brinquedos, tudo era ligado a manifestações culturais, populares e folclóricas. Quando eu ainda era bem criança, na Ilha de Itamaracá, lembro que participava do Bumba meu boi. Quando tive acesso aos quadrinhos, no Rio de Janeiro, vi que lhes faltava alguma coisa; eu não queria ser apenas um repetidor do estilo americano, do estilo de fulano ou cicrano. Eu me dei conta que o interessante era me voltar às raízes, a tudo aquilo que me influenciou quando eu era criança, inserindo-o nesse meio de comunicação de massa. Foi isso o que fiz.  

Eu tentei publicar aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, antes de viajar, mas não tive nenhum sucesso, nenhuma editora se interessou por isso. Meu propósito, então, foi primeiro fazer desenho animado baseado em literatura de cordel, o que também não foi possível, porque desenho animado era muito caro na época.

 

Quando eu fui estudar na Hungria eu vi que eles davam muito valor a sua cultura popular, então eu fiz umas gravuras em linóleo, que é muito semelhante à gravura em madeira, e senti que os professores gostaram. Então pensei que poderia transformar isso em quadrinhos. Quando apareceu uma oportunidade de viajar para o Festival Internacional de Quadrinhos de Lucca, que na época era um dos maiores do mundo, eu levei um storyboard que fiz para um desenho animado e mais essas gravuras. Assim conheci editores que se interessaram por meu trabalho e sugeriram que eu transformasse o storyboard em quadrinhos.

 

No Brasil há uma tendência de se copiar os quadrinhos de fora, quando se tem uma riqueza gráfica e um vasto universo imaginário que são desprezados. Você vai na contracorrente, utilizando a estética do cordel, da xilogravura em seus quadrinhos.

 

Acho que o problema é o desconhecimento dos jovens. A história que se estuda na escola é muito chata, cheia de nomes, de datas, contada pela classe dominante, pelos vencedores. Os jovens não têm acesso aos pontos de vista divergentes dos acontecimentos históricos, então essa falta de interesse faz com que a pessoa seja ignorante e influenciado pelo que vem de fora. A cultura de massa, principalmente a norte-americana, entra com muita força no país através da televisão, do cinema, dos quadrinhos, o que leva o jovem a não percebe a riqueza de nossa história.

 

Temos um país com muita diversidade, muita divergência, muitos conflitos, e esse desconhecimento faz com que a pessoa se apaixone pela forma do que vem de fora. O Brasil é um país que não tem escolas de quadrinhos, tem pouquíssimas escolas de arte e ainda por cima essas escolas, hoje na Universidade, desdenham o desenho; então a tendência do jovem é seguir um modelo que aparentemente é aceito por todo mundo. Ele entra nessa corrente, de ser mais um desenhista repetidor de um sistema; alguns dão certo.  

Deodato Filho, por exemplo, que é um tremendo talento, é uma pessoa que nasceu aqui, mas a cabeça está nos Estados Unidos. Não estou falando como crítica. Eu gosto de Deodato, o trabalho dele é excepcional. Só não entendo a pessoa não se dar conta da riqueza cultural de seu país, não ter ânsia de transportar isso para seu trabalho. Eu sei também que meu trabalho é quase nulo, eu não poderia fazer uma revista mensal sobre essa temática, porque aqui no Brasil os quadrinhos só vendem quando tem a televisão por trás, ou quando tem um grande esquema de merchandising que sustenta o trabalho, como ocorre com Maurício de Sousa.

 

O que percebo nos jovens que freqüentam a Gibiteca Henfil, em João Pessoa, é que eles tentam copiar os quadrinhos norte-americanos porque não têm uma sólida formação cultural, mas também porque acham que só assim é possível entrar no mercado. Dessa forma, o que acontece é a imposição do mercado, determinando um estilo. Deodato fala que quando for muito famoso vai tentar publicar os quadrinhos que gosta, com traço personalizado e não o que ele faz para os super-heróis. Não há realmente espaço para um tipo de trabalho como o seu?

 

Não, não há. Eu tenho outro livro em parceria com um amigo de Brasília que traz uma visão diferente de Canudos. Ele já teve duas edições na Itália, mas nunca achei editor no Brasil. A gente vê a editora como uma grande entidade cultural, mas nada mais é que uma empresa, que funciona para ganhar dinheiro. O editor é evidentemente inteligente, quer publicar as coisas que gosta, mas também tem que sobreviver.

 

 

Quadrinhos na educação

 

Outro caminho para os quadrinhos seria abordar fatos históricos, como você fez com Canudos. Não se poderia aproveitar o potencial dos quadrinhos na educação?

Acho estranho que os quadrinhos ainda não sejam utilizados como instrumento pedagógico. Eu já estive no Ministério da Educação e Cultura – MEC -, para propor a inserção dos quadrinhos na educação. A idéia se pautava em chamar quadrinhistas brasileiros para abordar temas atuais, sobre drogas, sexo, cidadania, racismo. Pra mim, a principal função dos quadrinhos no Brasil seria ligar-se à educação, por exemplo, com a adaptação de grandes clássicos da literatura. Os quadrinhos têm um papel muito importante para despertar nos jovens o gosto pela leitura e a cidadania.  

Esse projeto teria que necessariamente ter a participação do governo, porque se o MEC comprar as revistas e álbuns as editoras publicam. O que mais se vende hoje no Brasil é livro didático. Esses álbuns em quadrinhos não teriam que ser chatos, mas histórias com expressão própria, com a função de fazer um trabalho educativo sério sobre determinados assuntos latentes, que os jovens precisam tomar conhecimento por meio da linguagem dos quadrinhos.

 

Essa não é uma idéia só minha; muita gente já sugeriu isso, mas o governo não enxerga. O interessante é que até 1982 o MEC comprava esse tipo de quadrinhos, quando não existia uma grande produção. Mas agora nós temos um público disposto a ler quadrinhos e tem muita gente que é capaz de produzi-los, aliando-se o uso do computador, que facilitou muito a realização de certos tipos de trabalhos gráficos. Então se poderia fazer agora, este é o momento certo de utilizar os quadrinhos na educação.

 

Existe o desinteresse das editoras, que não investem nos quadrinhos, mas também a falta de uma política institucional, como você falou.

Essa política institucional tem que existir. O livro infantil brasileiro só existe hoje porque na década de 1970 houve uma resolução governamental de que as crianças teriam que ler; para atender a demanda dos novos leitores as editoras começaram a publicar. Não cabe ao governo fazer quadrinhos, mas abrir possibilidades para os quadrinhos, e quando isto acontecer, por meio de editais para compra de quadrinhos sobre determinados assuntos, com certas exigências artísticas, é evidente que vão aparecer muitas editoras dispostas a publicar.

 

Quando nós apresentamos o projeto a intenção não era fazer um produto com qualidade e conteúdo artístico, mas educativo. Por meio da linguagem visual também se faz educação. O brasileiro não dispõe de conhecimento suficiente para fazer análise sobre uma imagem porque não estudou para isso. Ele pode dizer que gostou ou não gostou de uma imagem, mas não saberá explicar por quê. Vivemos afundados num mundo de imagem, mas não sabemos lidar com isso, não conseguimos verbalizar o que se vê porque não existe educação visual. Os quadrinhos e o livro infantil cumprem essa função, como os museus, que são raríssimos, também o fazem.

 

O que é necessário a que essa iniciativa se concretize?

Basta o MEC colocar nos seus editais, quando for comprar livros para as escolas, que precisam de álbuns sobre racismo, sobre cidadania, que sejam artisticamente bem elaborados e que não tenha um texto chato, mas que concorram com os quadrinhos comerciais que estão na banca. Se fizer isso, como fizera com o livro infantil, tenho certeza que vai funcionar.

 

 

Quadrinhos e ilustrações

 

Você continua produzindo quadrinhos?

Tenho muita vontade de produzir quadrinhos, estou louco pra fazer quadrinhos baseados em contos de fadas dos Irmãos Grimm, de Charles Perrault e de Hans Christian Andersen. Parece contraditório com o meu trabalho, mas as histórias desses autores pra mim sempre foram brasileiras. Só aos 15 anos descobri que as histórias que eu escutava na infância não eram produzidas na Paraíba e em Pernambuco, eram histórias que vinham de fora, mas com um jeito totalmente nacional. Quando se falava em Joãozinho e Maria eu tinha certeza que a história tinha acontecido depois daquela serra no horizonte. É isso que faz com que os contos de fadas sejam um patrimônio da humanidade, porque sempre pegam sabores locais. Eu queria recontar essas histórias em quadrinhos, mas com sabor nordestino, com sabor do cordel.

 

O que falta para fazê-los?

Falta editora. Eu me aposentei e a aposentadoria, ao contrário de nos livrar de muitos compromissos, agrega outras coisas, com muitas despesas, e a gente é obrigado a trabalhar não exatamente naquilo que gosta. Apesar disso, são trabalhos interessantes, porque procuro fazer sempre trabalhos que eu gosto. Produzi para o Ministério da Saúde o salão de humor sobre DST-Aids em Brasília, que foi um grande sucesso, com a participação de 50 países. Eu sempre procuro fazer trabalhos que tenham sentido social.

 

Trabalhos “artísticos” tomam muito tempo, porque você vai caprichar muito e no fim só vale fazer se tiver uma editora interessada, ou o trabalho tende a ficar na gaveta. Enquanto você faz isso, você deixa de fazer outras coisas boas também, e que dão dinheiro.

 

Você já criou mais de 50 selos. Como é o acesso a esse tipo de produção?

Eu tive sorte de ir morar em Brasília, onde está a central dos Correios. Quando eu estava estudando na Hungria o meu sonho era fazer selos no Brasil. Eu vejo o selo como uma peça muito especial, embora hoje ele não tenha tanta importância como antigamente. Há muitas coisas hoje que concorrem com o selo, como, por exemplo, os cartões telefônicos. Mas o selo é importante porque é quase como uma pintura feita para um museu, é uma peça que faz parte da cultura oficial. O selo é difundido no mundo inteiro, entra em tudo que é catálogo, então isso dá satisfação ao desenhista. No selo, o original não tem grande importância, o mais importante é a reprodução.

 

Com qual tamanho você faz o original?

Geralmente faço no tamanho ofício, que cabe no scanner. Só é preciso ter muito cuidado com os detalhes, porque podem sumir na redução. Mas a impressão da Casa da Moeda é muito boa. Num selo que fiz sobre a primeira edição do Diário de Pernambuco, da década de 1820, eu tive que redesenhar toda a página porque estava tudo fechado, pois era uma reprodução da reprodução. Eu copiei letra por letra da primeira página em papel vegetal. No selo, em uma pequena parte, aparece a página inteira do Diário. Se você pegar uma lupa, vai ler todas as palavras, não tem nada fechado.

 

Na filatelia há campo para outros ilustradores?

Os Correios estão totalmente abertos. Antigamente eu era chamado para fazer selos, hoje tenho que entrar na concorrência. É uma espécie de concurso. Tem umas 500 pessoas inscritas lá, mas qualquer uma pode se inscrever. Você entra em contato, manda seus trabalhos e aguarda que lhe chamem. São poucos selos editados por ano, uns 20 a 30. Eles escolhem no arquivo dos desenhistas os mais adequados para fazê-los, mandam propostas para três, que vão concorrer entre si.

 

Quais são seus projetos?

Além da adaptação para quadrinhos de duas ou três histórias de Hans Christian Andersen e Charles Perrault, eu gostaria de fazer ilustrações para cordel sobre Andersen. Além disso, pretendo fazer um trabalho em braile visual. Pode-se fazer o braile em relevo e visual, com as bolinhas pretinhas, que tanto uma pessoa cega quanto qualquer outra possam ler, basta que a pessoa esteja preparada, com cinco horas de aula.

 

Existe desenho em braile?

Você pode fazer trechos do desenho. O cego tem muita dificuldade de juntar os pontos pra fazer imagem, principalmente o cego de nascença, mas é possível fazer pequenos trechos do desenho. Por exemplo, você desenha Pinocchio de perfil, com o nariz grande, então ele consegue sentir. É um projeto que tenho faz tempo, mas é muito difícil achar uma editora interessada nisso.

 

Tem que ser institucional.

Seria interessante, mesmo porque parece que os livros em braile não podem ser vendidos, não existe um mercado para esse tipo de livro. Mas como agora as crianças cegas são inseridas na escola comum, é necessário que haja essa integração entre o que a criança cega lê e o que a criança não cega possa ler também.  


Resenha

 

 

 

Hans Staden para brasileiro re-ver!

 

Gazy Andraus*

 

A tendência crescente no Brasil, em se editar obras de histórias em quadrinhos nos formatos de livros, que por sua vez são vendidos em livrarias normais e especializadas, em detrimento às tradicionais revistas HQ, não é algo novo na Europa (especialmente na França e Bélgica). Mas esta ampliação e gradual modificação nacional, de poucos anos para cá, traz a possibilidade de se estudar as transformações que estão se operando na aceitação das histórias em quadrinhos, não mais como subprodutos de fácil assimilação, e portanto “inúteis” e de “pouco conteúdo”, para um objeto de igual valor literário e informacional aos livros (e inclusive e principalmente de abordagens adultas), guardadas as diferenças peculiares de linguagens entre ambos.

 

Assim, o que falta, é um estudo mais apropriado destas distintas formas de informação, já que as histórias em quadrinhos se utilizam principalmente de imagens desenhadas em seqüência para informar. Ou seja: as informações se dão, não só pelos textos fonéticos, em sua maioria das vezes encontrados nesta linguagem, como também pelos traços dos desenhos, cujos estilos variam de autor para autor. E os desenhos são outros tipos de “grafias”, que, somente agora, após a introdução dos estudos de atividades cerebrais por tomografias computadorizadas, poderão ser realmente compreendidos quanto a seu valor e modalidades de grau de informação.

 

Uma das mais recentes obras lançadas no mercado livreiro, Hans Staden: um aventureiro no Novo Mundo, de Jô Oliveira, exemplifica a relevância das histórias em quadrinhos como fonte informacional, no caso, de divulgação histórica, porém de uma forma muita bem fluida. A leitura desta arte seqüencial remete o leitor aos primórdios da colonização brasileira, citando vários locais que fazem parte da história, como a Vila de São Vicente, Itanhaém e o Rio de Janeiro. Mostra a problemática situação dos portugueses, em manter a posse das terras contra os holandeses, mas também a diplomacia forçada com os índios, especialmente com os antropofágicos Tupinambás.

 

Hans Staden, o navegador alemão, feito prisioneiro desta tribo, usando sua inteligência e fé (aliadas à sorte), conseguiu manter-se vivo durante um tempo considerável, até sua fuga definitiva, para depois deixar o relato num livro que serviu como um documento importante retratando os tempos de outrora.

 

Porém, a quadrinização de Jô Oliveira, como numa adaptação cinematográfica bem dirigida, é levada com extrema fluência narrativa. O leitor principia a correr as páginas do livro envolvendo-se definitivamente com a obra. Poucas histórias em quadrinhos conseguem tamanha fluência (os cinco volumes de “Os Passageiros do Vento” de François Bourgeon, infelizmente nunca publicados no Brasil, enquadram-se nesta categoria), e o autor, com maestria, leva a bom termo a proeza num trabalho impresso que, é importante frisar, já tem quinze anos de existência! “Hans Staden”, de Jô Oliveira foi publicada primeiramente em capítulos na revista italiana “Corto Maltese”, enquanto que outros títulos de Oliveira também foram publicados em vários países europeus, como França, Alemanha, Dinamarca, e também México, Grécia e Argentina.

 

Este atraso brasileiro, no caso da obra aqui em pauta, reflete principalmente a questão do desprezo que vinha na formação intelectual nacional, acerca do potencial das histórias em quadrinhos.

 

Deve-se ressaltar, que um trabalho como este não é apenas uma extensão da leitura de um livro, ou um subproduto paradidático, mas sim, um objeto cultural de elementos constitutivos únicos, e que atuam distintamente na mente do leitor, agregando outras informações que jamais existiriam nas leituras exclusivas da escrita fonetizada.

 

Assim como um livro, sozinho, não pode encerrar e contemplar toda a informação necessária ao leitor, o álbum de quadrinhos igualmente não esgota o manancial informativo aos olhos do visualizador de suas páginas. Mas cada um destes dois objetos, interligados, podem ampliar e levar a formas distintas e complementares de entendimento, com dados que serão processados em conjunto na mente do leitor. O que resultará daí é uma riqueza de interposições que ainda precisam ser estudadas pela ciência atual. Os desenhos de Jô Oliveira, por exemplo, remetem a um estilo similar ao proporcionado pela xilogravura, e também a um estilo figurativo “naif”, sem deixar de ter suas proporções naturais e semi-caricaturizações próprias. Os traços são em preto e branco, realizados em nanquim, e possuem uma expressividade similar aos desenhos encontrados também nos livros de cordel.

 

Todas essas qualidades direcionam-se ao leitor, incutindo nele seus atributos. Mas em muitos casos, uma alfabetização “icônica”, como quer o pesquisador francês e defensor dos quadrinhos Thierry Groensteen, far-se-ia necessária. Do contrário, todo o manancial que se encontra nas obras de quadrinhos (como esta em pauta), se torna pouco aproveitado.

 

Hans Staden: um aventureiro no Novo Mundo, além de uma elaborada história em quadrinhos séria, traz também um ilustrado posfácio do pesquisador e escritor Mustafa Yazbek, pontuando de forma didática a situação histórica vivida no Brasil do período retratado pela obra de Jô Oliveira, completando os graus de informação deste importante trabalho (enquanto que uma cronologia sucinta, abrangendo os anos de 1492 a 1580, fecha o álbum).

 

Se as escolas e faculdades brasileiras querem mesmo se atualizar e melhorar suas propostas didáticas, está mais do que na hora de passarem a enxergar trabalhos como estes, utilizando-os completamente e de forma sui generis (não simplesmente como apêndices dos livros fonéticos). Afinal, o desenho acompanha desde antes da escrita a expressão humana, formatando e impingindo uma memória distinta na mente dos leitores, marcada por uma leitura icônica particular, fruitiva, e quase completamente passível de um entendimento mais aprofundado quanto à sua carga de influência cultural.

 

 

 

 

   Hans Staden: um aventureiro no Novo Mundo   

Jô Oliveira

São Paulo: Conrad Editora, 2005. 82p. 26,5x21cm.

 

* Gazy Andraus é pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e doutorando em Ciências da Comunicação da ECA-USP, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica. gazya@yahoo.com.br


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