Klévisson Viana: contador de histórias Quixeramobim, Ceará, é a terra que deu à luz Antônio Klévisson Viana Lima, poeta popular, cartunista, editor e entusiasta da literatura de cordel. Nasceu em 3 de novembro de 1972, embalado pelo encanto do reisado, pelas canções e repentes de viola, pelas histórias fantásticas dos cordéis narradas por seu pai. Seu trabalho à frente da editora Tupynanquim é uma referência na luta por uma das mais autênticas expressões de nossa cultura popular, a literatura de cordel, que ele cria, edita e difunde por todo o país em feiras, salões, exposições, preservando o espírito de contador de histórias, de caixeiro viajante, mas sem abrir mão das novas tecnologias de comunicação.
Em paralelo a sua labuta literária, mas não menos importante, Klévisson Viana produz quadrinhos com uma qualidade espetacular. Seu primeiro trabalho, Lampião era o cavalo do tempo atrás da besta da vida, lançado como produção independente, ganhou o cobiçado troféu HQ Mix como melhor álbum de 1998. Esse mesmo álbum foi reeditado pela editora Hedra, com acréscimo de referências ilustradas da cultura e dos modos do homem do sertão nordestino, o que lhe deu um caráter antropológico.
Sua atividade como cartunista teve destaque ainda com a publicação em 2003 do álbum A moça que namorou com o bode, baseado no cordel de seu irmão Ari Evaldo Lima, onde mais uma vez investe no imaginário do povo de sua região e retoma o trabalho de registro dos costumes do homem da terra. Ao lado de Flavio Colin e Júlio Shimamoto, participou do álbum Mirabilia, escrito e editado por Wellington Srbek em 2000. Seu trabalho mais recente, de 2005, As aventuras de Dom Quixote em versos de cordel, é uma magnífica edição ilustrada baseada na obra de Miguel de Cervantes.
A entrevista a seguir foi realizada em 27 de maio de 2006, em João Pessoa, durante a Bienal do Livro da Paraíba. Klévisson,desde
quando você mora em Fortaleza?
Fui para Fortaleza em 1999 com o objetivo de divulgar meu trabalho de desenhista, de ilustrador. No interior eu ilustrava o jornal A Voz do Povo, mas o espaço era pequeno, a gente não ganhava nada, fazia tudo de graça. Em Fortaleza comecei a trabalhar numa gráfica, onde fui explorado até dizer chega! Ilustrava apostilas, material escolar e não ganhava nem o salário mínimo. Passei um mês nesse rojão, acordando de madrugada pra chegar às 6 horas na gráfica pra bater o cartão. A gráfica pertencia a um colégio, que hoje é uma universidade.
Um dia eu inventei que estava doente pra não ir trabalhar, botei uma pasta de desenhos em baixo do braço e fui ao jornal O Povo. Lá tive a felicidade de encontrar um rapaz chamado José do Egito, que era diretor de arte, e mais outras pessoas que ficaram encantados com meu trabalho. Eu era ainda muito menino, tinha 16 pra 17 anos, muito raquítico, franzino, menino do Sertão. Eles ficaram muito surpresos como um menino daquele fazia coisas tão bonitas. Em menos de dez minutos os desenhos já estavam espalhados na redação inteira. Aí o cara me chamou e disse, bora ali falar com o editor. Ele disse, olha, você quer trabalhar aqui? E eu disse, claro, né? Ele disse, pode começar hoje. Hoje eu não posso porque estou organizando um salão de humor lá na minha cidade, em Canindé, neste final de semana, mas quando for na segunda-feira eu estou aqui. Na segunda-feira eu fui e fiquei trabalhando na gráfica.
Na época da gráfica do colégio eu ganhava em cruzeiro, como se eu ganhasse hoje uns 100 reais por mês, que não pagava nem sequer o ônibus. Eu ia lá mais por interesse meu. Aí o camarada chega e diz, você vai ganhar tanto, o equivalente a cinco salários. Isso ainda hoje continua sendo um bom salário, e o cara ainda pergunta, quer? Eu fiquei trabalhando e passei cinco anos nessa brincadeira.
Sempre como ilustrador? Ilustrador e chargista. O detalhe é que nas ilustrações eu procurava sempre botar um pouquinho de humor, fazer tipo um cartum, porque meu objetivo maior não era só ilustrar, era fazer cartum, porque eu gostava mesmo era de fazer desenho de humor.
Você
também fazia quadrinhos, tirinhas?
Sim, fazia. Eu tinha um personagem chamado Jucuruca, que era um menino morto de fome, que ia pra escola só por causa da merenda. Eu tinha mais de 200 tiras desse personagem. Hoje eu pego o arquivo e vejo que as histórias continuam muito boas e atuais, porém o desenho está defasado. Seria interessante que eu pegasse essas histórias e redesenhasse todas, atualizando e criando outras novas pra publicar um álbum porque o personagem era realmente muito bom. O camarada que era editor de arte era fã do personagem.
Tem uma tirinha em que Jucuruca estava dormindo e caía um rato da telha dentro da rede dele. Aí o pai dele, filho, um rato caiu na sua rede, aí ele pegava e dizia, caiu na rede é peixe, ó. Ele comia tudo, tá entendendo?
Se você redesenhar sai pela Marca de Fantasia.
Vamos fazer isso, uma parceria Tupynanquim-Marca de Fantasia, afinal de contas nós somos ambos pequenos grandes editores que estão na mesma batalha, procurando os mesmos objetivos.
Você é um contador de histórias nato, pelo jeito de falar, pelo entusiasmo. Vem daí seu interesse pela literatura de cordel?
Olha que interessante! Eu nasci num lugar que não tinha casas por perto. Até o hábito de falar um pouco alto vem daí, porque quando você não tem vizinhos que se incomodem, você acaba perdendo a noção do volume da voz.
Mas uma coisa muito legal que a gente cultivava em casa era isso, papai chegava do roçado, papai só teve a oportunidade de se alfabetizar, mas se tornou a partir daí um leitor. Todos os livros que passaram pelas mãos dele até hoje ele leu, até muito mais do que eu, que sou uma pessoa que convivo com os livros diariamente. Se eu entregar 10 livros na mão dele ele lê todos. Daqui a uma semana se eu chegar lá, e os livros? Já li todos, pode levar. Eu pergunto as coisas só pra ver se ele leu mesmo.
E é um hábito muito interessante porque ele chegava do roçado, aquela luta diária, árdua, difícil, que continua como agricultor ainda hoje, e pegava aqueles livros de literatura de cordel, biografias de grandes vultos da pátria, como Castro Alves, Santos Dumont. Até hoje eu tenho uma verdadeira paixão por Santos Dumont graças a ele. Quando eu tinha 3 pra 4 anos ele leu a biografia de Santos Dumont e a gente ficou encantado. Isso é o que falta. Se o pai ler para o filho, dificilmente o filho não vai se tornar leitor, tanto é que quase todo mundo lá em casa gosta de leitura. Com exceção de dois irmãos meus que não ligam pra nada, os outros todos gostam de leitura.
Você pergunta, como é que um homem semi-analfabeto, ou melhor, autodidata, difundiu a literatura dessa forma dentro de um grupo familiar? Então isso é legal, isso é bacana. Daí é que vem essa vontade de contar histórias. Primeiro como ouvinte, como expectador dos irmãos mais velhos que pegavam as histórias e liam, do pai que lia as histórias pra gente e eu cresci com essa vontade, ou seja, você tocou no ponto, porque o objetivo maior não é só fazer quadrinhos, é contar histórias. Esse é que é o objetivo primordial da coisa.
Nota-se em seu desenho uma grande influência de temas regionais; você faz pesquisa antropológica e o traço se inspira na xilogravura. Como é essa história de estar tão ligado ao cordel a ponto de fazer uma interseção dessa arte com os quadrinhos?
Meu bisavô, seu Fitico, era poeta popular. Teve um grande cantador no início do século passado chamado Jacó Passarinho que cantou muito com o lendário cantador Cego Aderaldo e esse Jacó Passarinho era primo legítimo de meu bisavô. Ele tinha outros primos também que eram poetas. O meu bisavô era pai de minha avó paterna, a dona Alzira. Dona Alzira trouxe para meu pai todo esse hábito da leitura, o gosto pela leitura porque ela estudou em colégio de freiras e os pais também liam, tanto que o pai dela, esse meu bisavô que era poeta, recebia jornais que eram publicados na capital. Ele era, talvez, um dos poucos sertanejos que recebiam jornais. Ela sempre morou no campo, mas sempre foi uma leitora, e passou esse hábito para os filhos dela, no caso meu pai, e meu pai passou pra gente.
Então essa coisa da cultura popular está presente realmente, mas é uma coisa espontânea, não precisa esforço nenhum porque está no sangue da gente, está nas veias, a poesia, o cordel, a gravura. Quando eu desenho, se meu desenho parece com xilogravura às vezes, eu nem percebo, porque é uma coisa muito natural, já está incorporado na maneira como a gente vê as coisas.
Como você aprendeu a fazer cordel?
Com meu pai, primeiro de tudo, porque se você for cumprimentá-lo é capaz de ele lhe cumprimentar já com um repente. Então vai lhe envolvendo com a poesia e a poesia é um jogo muito divertido, é um mundo encantado muito rico, é uma coisa fascinante. Eu tenho buscado coisas dentro dos quadrinhos e levado para o cordel, feito essa ponte e por incrível que pareça, depois eu descobri que os quadrinhos e os cordéis nunca estiveram separados, pelo menos nas raízes européias.
Eu digo quadrinhos porque essa história de que os quadrinhos têm 100 anos é pura balela, porque eu tenho um álbum de ilustrações antigas, até ilustrações da idade média, que já têm até uma coisa parecida com o balão. Essa história de Yellow Kid é coisa de americano pra ir enganando a gente, tanto que nós temos Angelo Agostini com o Nhô-Quim pra provar o contrário.
Na Holanda, na França, onde essa literatura existiu na Idade Média, eu peguei algumas edições, principalmente uma da Itália, que está lá a história toda contada em poesia e em vez de ter só uma ilustração, tem três quadros pra poder explicar a cena. Quer dizer, já estava associada uma coisa com a outra, a imagem, a arte seqüencial com o texto. Então essa ligação é uma vocação nata.
Às vezes a gente vê os quadrinhos e o cordel como uma coisa muito distante da outra, mas não é. Tudo é contação de história. Até a forma como você cria um roteiro pra desenvolver uma história rimada é o mesmo esquema de criar um roteiro para um quadrinho, para um filme, para uma peça de teatro, são os mesmos princípios, uma história não pode fugir de ter começo, meio e fim.
Acho fascinante como você trabalha o cordel de uma forma tão popular, de ir às feiras e festivais e sinto que falta isso em relação aos quadrinhos. Por exemplo, não se tem uma banca de quadrinhos popular. Você faz quadrinhos inspirados no cordel, no entanto quando edita quadrinhos utiliza o formato de álbum. Não é possível trabalhar os quadrinhos no mesmo formato do cordel?
Com certeza! Temos projeto pra fazer isso, inclusive a gente já fez um livrinho de cartuns no formato do cordel. Quando editamos um álbum mais elaborado é apenas pra chegar numa livraria mais sofisticada e provar que, ao mesmo tempo em que a gente tem condições de fazer uma coisa simples, podemos fazer algo mais rebuscado. Você sabe que infelizmente, para algumas pessoas, se você faz alguma coisa muito modesta elas dão uma rabissaca, torcem o pescoço pra você.
Então eu procuro transitar de um suporte pra outro, pra mostrar que a gente não está pra brincadeira, está fazendo um trabalho sério. Porém, eu concordo com você numa coisa, eu acho que a gente tem condições de desenvolver um quadrinho muito mais popular, porque o quadrinho é uma arte popular por excelência, tem uma vocação de cultura popular. Quadrinho é cultura popular. Mas algumas pessoas ainda teimam em insistir que é cultura de massa.
O quadrinho pode ser essa coisa produzida em série, mas a partir do momento que você faz a sua Maria numa tiragem pequena, faz seu fanzine, isso é cultura popular autêntica. O cara passa um mês pra fazer um fanzine, pra vender por um preço altamente acessível, isso é cultura popular e tem um mercado para isso. A gente pode pensar futuramente em revolucionar esse mercado, o que não pode é achar que não vai conseguir.
Às vezes as pessoas falam mal de Maurício de Sousa, mas não deveriam. Foi por ele acreditar na loucura dele – porque pra chegar aonde ele chegou o cara tem que ser louco –, por ele não saber que no Brasil era impossível fazer aquilo foi que ele fez. Primeiro foi uma dose muito grande de empreendedorismo, segundo, de ingenuidade. Porque se ele não fosse puro, começasse a ver os prós e os contras, ele não teria chegado a lugar nenhum. Veja que vários outros artistas não menos talentosos tentaram, como Daniel Azulay, Ely Barbosa, o próprio Ziraldo, e não conseguiram o mesmo êxito de Maurício.
No aspecto formal, você considera que há influência da obra de Jô Oliveira em seu trabalho?
Jô Oliveira é muito meu amigo, a gente se quer muito bem. Toda vez que a gente se encontra a gente tem muita coisa pra conversar. Mas Jô vê a cultura popular de uma forma contemplativa, porque ele é uma pessoa que teve oportunidade de estudar nas grandes universidades e até no exterior. O sangue nordestino corre nas veias dele, mas ele é uma pessoa que teve uma origem diferenciada da minha. Eu sou uma pessoa que veio da zona rural, de uma família pobre, humilde, ele veio de uma família de classe média, então ele tem uma visão romântica da cultura popular. Talvez a única diferença esteja aí.
Claro, o trabalho dele, que é muito bonito, influencia todo mundo, mas a minha ligação com a cultura popular talvez seja uma coisa mais visceral. É verdade que eu pesquiso um pouco também, mas a maioria é fruto de minha própria vivência, minha própria experiência com o campo, com o sertanejo, com o linguajar característico do povo.
Às vezes o camarada gosta de cultura popular de verdade, mas ele não tem uma origem popular. É uma rapadura tão doce a cultura popular que às vezes a pessoa lambe só a casca e acha que já sabe de tudo. O cabra que vem lá do miolo sempre está querendo mais. Se você observar, o texto de Jô tem uma visão romântica dos cangaceiros, que são sempre heróis. Eu não tenho essa preocupação de tornar meu cangaceiro herói ou bandido, quero apenas narrar a história dele como foi.
Como funciona a editora Tupynanquim?
A editora existe desde 1995, quando eu fui enxotado do jornal O Povo. Me mandaram fazer 13 ilustrações de uma lapada para o mesmo dia, eu me neguei. Por essa indisciplina, eu fui obrigado a assinar uma advertência e no outro dia acabei pedindo minha demissão. Depois de passar cinco anos num veículo desse, quando saí do jornal me senti como um peixinho fora d’água, mas graças a Deus, na mesma semana eu arranjei mais dois outros empregos: pra ilustrar a revista Mandacaru, que estava nascendo, e depois passei a fazer outros trabalhos.
Desde que trabalhei no jornal a idéia da Tupynanquim já existia dentro da minha gaveta e pensava em concretizá-la quando saísse do jornal. Inicialmente eu montei a Tupynanquim como um estúdio gráfico. Eu publiquei durante um ano uma página semanal de humor gráfico, que se chamava Muro baixo, na Tribuna do Ceará. Depois eu colaborei com outros jornais, porque eu tinha essa ligação muito próxima com a imprensa.
Em seguida, em 1996, 1997, eu comecei a produzir livros para a Unicef, a ilustrar, diagramar, fazer capa, tudo. Foram mais de 50 obras, o que de certa forma deu muito dinheiro. Mas eu não tinha, digamos assim, muito tato no manuseio do dinheiro e todo ele escapuliu das minhas mãos e eu não lucrei muito com isso.
Quando foi em 1998 eu já escrevia cordel, mas nunca publicava. Meus cadernos eram cheios de versos, os de meu irmão mais velho Ari, que é poeta, também. Aí uma amiga de Teresina, que morava em Fortaleza, me procurou e disse, olha, minha filha vai fazer um trabalho na escola sobre cordel, eu virei essa cidade de cabeça pra baixo e não encontrei um folheto pra comprar. Era uma vergonha, como era que com tantos poetas populares você não ia encontrar folheto pra comprar! Eu tirei um folheto da minha coleção, A chegada de Lampião no inferno, de José Pacheco, que é um clássico, dei de presente pra ela. Eu fiquei com aquele negócio na cabeça. Rapaz, tem que ser feito alguma coisa senão essa cultura some.
Aí eu fui pra São Paulo, pra casa da Sonia Luyten. Coincidentemente encontrei o Joseph, marido dela, que é um grande pesquisador de cordel, você sabe. Então pergunto a Joseph por que essa cultura não morre nunca? E ele foi dizendo, não morre porque enquanto você se sentir nordestino você vai tentar se expressar dessa forma, porque é uma coisa que está em seu inconsciente, é uma coisa ancestral, do povo, do Nordeste.
Quando voltei pra Fortaleza, meu irmão mais velho tinha produzido mais um colega uma caixinha com 10 títulos de cordel. Depois disso a gente não parou mais de publicar. Ao longo desses sete anos, ou quase oito, editando literatura de cordel, já publicamos mais de 500 obras e já foram impressos muito mais de um milhão de exemplares, porque boa parte dessas obras já sai, de cara, com dois mil exemplares.
A gente vai vendendo aos pouquinhos. Uma parte da produção vai para o autor. Vendemos também com muito desconto, porque quem compra é o folheteiro, o cabra que vai pra feira tentar ganhar o pão da família. Tem vários poetas e folheteiros que sustentam a família ainda com a venda do folheto, nas feiras, no interior, como é o caso do poeta José de Fátima, lá da cidade de Almofalas, o poeta Gonzaga Vieira, da cidade de Canindé e vários outros que vivem da literatura popular.
Sua
editora é informal, um trabalho alternativo, ou é registrada?
A editora é registrada como estúdio gráfico, mas eu pretendo registrá-la como editora também, pra que tenha alguns benefícios, como comprar papel mais barato. Mas eu não tenho pretensões de ter gráfica porque eu lido com gráfica desde menino e eu sei que não é muito fácil lidar com o profissional que trabalha na indústria gráfica.
Eu estava conversando ontem com o poeta paraibano Manoel Monteiro, lá de Campina Grande, que também faz um trabalho de editor, e ele me disse, olha, é muito mais negócio a gente terceirizar. Eu acho que pra nós, que somos pequenos, tentar manter uma estrutura é muito complicado, acho que terceirizar acaba sendo mais barato, ao final das contas.
Qual
a tiragem dos folhetos?
A tiragem mínima é de mil exemplares, mas quando a gente aposta muito no folheto, temos feito até de cinco mil exemplares.
Como
é feita a distribuição?
São os próprios poetas de cada região que procuram a gente. Hoje estamos distribuindo em Aracaju, onde temos representantes, assim como na Bahia, em Belém do Pará, no Maranhão, no Piauí. Aqui mesmo na Paraíba fazemos muita permuta com Manoel Monteiro, a gente acaba vendendo o material dele e ele vendendo o da gente, e dessa forma os folhetos vão circulando.
Talvez a distribuição do cordel seja um pouco mais inteligente que a distribuição dos quadrinhos. Outro aspecto que conta ponto para o cordel é que ele não tem que ficar competindo com ninguém que vem de fora. Nesse ramo do cordel o Brasil reina absoluto, né? Literatura popular a gente sabe que existe em outros países, mas com a dimensão da literatura popular do Nordeste não existe em lugar nenhum do mundo.
Isso quer dizer que tem muita gente lendo cordel.
Muita, amigo! não só o cidadão comum, como o gari, o zelador, a pessoa do campo. Também o professor, o aluno, o acadêmico. O turista, que todo ano que vem pras férias no Nordeste, procura o cordel mais como um souvenir e acaba se tornando leitor. Todos os anos boa parte dessas mesmas pessoas nos procura para adquirir as novidades, é uma prova de que o cara leu, gostou e está procurando mais.
Como é a relação com os autores em termos de direitos autorais?
O cordel é revolucionário até nesse aspecto, porque todas as editoras trabalham com essa coisa dos 10%, que o autor não tem o menor controle, não é verdade? Eu tenho publicado trabalhos por outras editoras também e sei que a gente não tem controle sobre isso. No meu caso, o autor acompanha o trabalho comigo e ainda recebe 20% da tiragem. O meu interesse de dar 20% da tiragem do folheto é pra que ele se torne um agente multiplicador daquela literatura, porque se eu pagar em dinheiro, morre ali a relação. É interessante para o autor, porque ele quer ter a obra dele pra mostrar pra um amigo, pra um pesquisador que o procura. Ele tem orgulho de mostrar o trabalho dele, e é interessante que ele mostre, e não só ele é multiplicador e divulgador do trabalho dele como do trabalho da editora.
Com
a Marca de Fantasia eu faço do mesmo modo, pago o direito autoral em
exemplares.
É muito mais interessante porque o autor acaba, em contrapartida, trabalhando para divulgar a editora também, ele é parceiro da editora, não é um cara que foi lá, levou um livro, você publicou e depois morreu ali o contato, né? A partir do momento que você edita o trabalho do autor, a relação fica mais estreita e ele passa a lhe divulgar também.
Existem
outros editores como você?
Aqui na Paraíba tem o Manoel Monteiro, em Campina Grande, que tem feito um trabalho excelente. Tem também a editora Coqueiro, lá no Recife, do jornalista Ivan Maurício, que é um grande incentivador dos quadrinhos e desenhista, na linha de Millor Fernandes. Basta dizer que aquela turma da Ragú, todos passaram pelas mãos do Ivan quando era editor do Diário de Pernambuco. De certa forma eles são crias de Ivan, porque na hora em que os meninos estavam começando a desenhar ele teve a sensibilidade de ajudá-los. Hoje ele reside em Fortaleza e tem dado uma força muito grande pra gente.
Quantos
títulos você já publicou e sobre o quê?
Mais de 500 títulos de mais de 60 autores. As temáticas são muito variadas, desde o romance tradicional que aborda o cangaço, à religiosidade popular, passando pelas lendas, pelas tradições, como Pedro Malasartes, Canção de Fogo, João Grilo, que são os folhetos de gracejos, de humorismo, até chegar aos temas mais atuais, como artistas que abordam a visita de satanás ao baile funk ou o namoro de uma mocréia pela internet.
As pelejas virtuais estão muito em voga também, um poeta manda um e-mail com uma estrofe, o outro responde desafiando, e fica naquela peleja uma semana, duas. Eu mesmo já publiquei três pelejas dessas, inclusive uma com o poeta paraibano Braulio Tavares, que acabou de ser lançado.
Você
utiliza a internet para divulgação e para o contato com os leitores?
Da mesma forma que você, com a Marca de Fantasia. Um veículo como a internet tem possibilitado a gente vender a produção para o Brasil inteiro. Hoje nós temos um site só da Tupynanquim, com a produção de folhetos e de livros, que é mais comercial e tem um outro só com minha produção de desenhista, que é uma coisa mais autoral, mais para contemplação. A gente já chegou a receber uma média de 10 e-mails por semana de pessoas querendo o catálogo, querendo comprar. Isso é muito bom. No final do mês, a gente acaba tendo um montante de venda considerável. A venda também é feita pela internet. O camarada deposita na conta, ou se preferir a gente manda a publicação pelo reembolso postal.
Dá
pra sobreviver da arte?
A gente só vive disso. Uma hora se ganha bem, outra hora a gente não ganha nada, mas tá sempre correndo atrás. Graças a Deus eu tenho ao meu lado uma pessoa que me apóia muito, minha esposa Dulce. Quando se tem uma pessoa que compra a briga com a gente tudo se torna mais fácil.
Qual
sua visão sobre os fanzines?
Eu comecei fazendo fanzine, fiz por mais de um ano o Arapuca, que era um fanzine de humor e de quadrinhos. Depois fiz o Arlequim, com Jackson Portela; fiz A Tramela, com Ari Evaldo.
Com exceção de alguns como o Top! Top! ou o trabalho de Guabiras, que é um rapaz de Fortaleza muito talentoso, acho que os fanzines trazem muita porcaria, muito lixo, muito besteirol, coisa que não edifica, que não constrói o ser humano e que, de certa forma, contribui negativamente para que uma pessoa passe a achar que quadrinho é aquilo, e não é; tem muito quadrinho legal pra ver. Até mesmo um autor como o Manara, que aborda uma temática erótica, a forma como ele aborda é tão bonita, é tão poética, que até quando ele mostra uma cena de sexo explícito ele não agride o olho da gente.
Agora quando só se fala em droga, em prostituição, nesse submundo do crime, não vai melhorar o ser humano. O mundo já é tão feio, tão violento que acho que o artista pode dar uma grande contribuição para melhorar a sociedade. Acho que falta essa consciência na maioria das pessoas que fazem fanzine. O artista que se dá trabalho de multiplicar essa barbárie que está aí não é legal.
O
papo poderia ir muito mais longe, mas o fundamental já está dito.
Muito obrigado pela oportunidade de participar desse fanzine tão bonito, o Top! Top!, que é uma homenagem ao nosso grande Henfil. Você está de parabéns por essas suas iniciativas de não deixar nunca que essa cultura tão bonita dos quadrinhos desapareça, principalmente a produção da gente. Esse negócio de competir com mangá, com quadrinho americano de super-herói, eu não tou nem aí pra eles, eles sempre vão existir e se não forem eles, outros irão aparecer no lugar pra invadir.
O importante é que você faça um trabalho seu, com honestidade, que tenha a sua cara, que tenha as suas idéias. É só isso que importa. Hoje talvez você não seja reconhecido, mas amanhã ou depois quando forem fazer um balanço da produção do Brasil, vão ver que teve um Henrique que esteve produzindo o tempo inteiro, que teve um Klévisson Viana, um Flavio Colin, um Júlio Shimamoto, pessoas que deram suas vidas pra fazer uma coisa realmente de valor e que tivesse uma cara de brasilidade.
Conheça a Tupynanquim e o trabalho de Klévisson Viana: http://fotolog.terra.com.br/tupynanquimeditora2071:43 tupynanquim_editora@ibest.com.br
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