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Edgar
Vasques é destaque de Top! Top! 23 |
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TOP!
TOP! 23
Editor:
Henrique Magalhães
João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2007,
40p, 14x20cm. R$6,00
ISBN
1415-8558
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Rango
é, sem dúvida, o personagem mais conhecido de Edgar Vasques.
Nascido em plena ditadura militar, Rango com sua fome crônica
e cavalar, incomodava o sistema político, que se mantinha na base
da censura e do ufanismo. As tiras de Rango faziam frente com
uma legião de quadrinhos de humor e contestadores que marcaram a época,
dando voz aos cartunistas e traduzindo a angústia do povo com relação
ao regime de exceção.
A
obra de Edgar Vasques, contudo, vai além das tiras de Rango.
Seu trabalho também teve a difusão nacional quando adaptou para os
quadrinhos as histórias d’O Analista de Bagé, criado por
Luís Fernando Veríssimo. Tanto Rango quanto O Analista,
tiveram livros e álbuns que registraram o virtuosismo desse autor
gaúcho.
Mas
Edgar enveredou ainda por outras experimentações gráficas, com
histórias em quadrinhos pouco conhecidas do grande público e, de
forma excepcional, com sua incursão na técnica da aquarela,
produzindo ilustrações como a que figura na capa do fanzine. Os
quadrinhos e demais expressões gráficas exploradas por Edgar
formam o corpo da entrevista, que é a matéria principal dessa edição do Top! Top! Em
complemento, temos amostras significativas de seu trabalho para
rememorar e conhecer.
O
fanzine apresenta também uma resenha de Matheus Moura sobre o livro
que comemora os 35 anos de Rango, lançado em 2005 pela
L&PM. O pesquisador Nobuyoshi Shinen faz um balanço dos livros
teóricos sobre quadrinhos lançados no país em 2006. A seção Chamada
Geral traz resenhas do melhor que é lançado no meio
independente; a seção Lero-lero mostra a opinião dos
leitores. Fechando a edição, temos um cartum do argentino Sergio Más
e tiras de Valdevino, personagem do paraibano Raoni Xavier.
Entrevista
A
arte magistral de Edgar Vasques
Por
Henrique Magalhães
A
década de 1970 viu surgir uma vigorosa produção de um certo tipo
de quadrinhos no Brasil, as tiras humorísticas, que faziam par com
as charges e cartuns em oposição à ditadura militar. Esses
quadrinhos tinham, sobretudo na imprensa alternativa, seu celeiro de
criação. Eram quadrinhos críticos, bem ou mal humorados, mas
reflexivos sobre nossa situação política em particular e sobre a
ideologia capitalista no geral.
Todavia,
nenhuma tira teve o impacto de Rango, de Edgar Vasques. Uma
personagem no limite da condição humana, uma escória social a
disputar as sobras do que comer com um cachorro e ainda com um filho
pra criar era forte demais para os meios de comunicação de massa e
mesmo para o estômago de muitos leitores. Ainda assim, Rango
surgiu no jornal Folha da Manhã, de Porto Alegre, migrou
para a imprensa nanica e foi lançado em livro, sendo a pedra
fundamental da L&PM editora.
Edgar
Vasques não se contentou com seu célebre e imortal personagem.
Criou outros não menos importantes, fez parceria com Luís Fernando
Veríssimo dando corpo ao Analista de Bagé e se dedicou a
outras expressões das artes visuais. Sua sensibilidade artística,
que tratou de temas tão chocantes com tanta firmeza, também se
empenhou em desenvolver uma bela obra plástica, expressa na
delicadeza da aquarela, que ele faz com maestria.
Na
entrevista a seguir, realizada em João Pessoa em dezembro de 2006,
durante a Bienal de Desenho promovida pela Fundação Espaço
Cultural José Lins do Rego, Vasques nos fala generosamente de sua
formação e seu processo produtivo.
Quem
é Edgar Vasques?
Edgar
Luiz Simch Vasques da Silva, brasileiro, nasci em 1949, em Porto
Alegre, Rio Grande do Sul, onde vivo até hoje.
Qual
sua formação acadêmica?
Sou
formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, em 1979.
Você
exerce a Arquitetura como profissão?
Não.
Me aposentei no dia da formatura. Fiquei dez anos e meio na
faculdade e ao mesmo tempo trabalhava em jornal, por isso demorei
todo esse tempo pra concluir o curso. Aliás, não uso a Arquitetura
pra muita coisa. O que me foi importante na Arquitetura foi a formação
humanista.
É
interessante que temos muitos exemplos de quadrinistas com formação
na Arquitetura. Eu também fiz o curso, mas larguei no final, pra
fazer Jornalismo.
Qual
é, então, sua atividade profissional?
Eu
desenvolvi o que chamo de versatilidade compulsória. No ramo
do grafismo eu faço um pouco de tudo pra poder sobreviver: ilustração,
quadrinhos, charge, caricatura. Além disso, tenho tido incursões
no jornalismo propriamente dito. Já editei publicações ligadas ao
grafismo, já fiz entrevistas, já agi como editor de textos,
escrevo sobre o assunto, então tenho uma gama de atividades bem
variada.
Além
do grafismo, você faz outros trabalhos na área das artes visuais?
Faço
aquarela, mas é um trabalho diletante. Embora eu já tenha vendido
minhas aquarelas, não considero ainda isso como uma atividade
profissional. Eu faço isso nas férias, quando estou viajando, como
estou fazendo aqui com o que estou vendo na janela do quarto do
hotel.
Tenho
esse tipo de aquarela de vários lugares do mundo, de Buenos Aires,
Quito, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e agora daqui, de João
Pessoa, onde tem uma paisagem interessante. São coisas que faço
como diletante, que me ajudam a exercitar essa técnica.
Apesar
de já ter feito exposições, não me considero um aquarelista
ortodoxo, ao estilo das artes plásticas. Eu trabalho aplicando a
aquarela a um objetivo gráfico.
Desse
modo, você tem conseguido viver de desenho no país. Isso é muito
raro.
Na
verdade, no momento eu estou tentando restabelecer uma relação com
o mercado do grafismo, do grafismo aplicado à imprensa, porque eu
fiquei praticamente onze anos fora do mercado. Durante esse período
eu colaborei como funcionário temporário na Prefeitura de Porto
Alegre, onde fazia direção de arte numa house agence que
tinha dentro da prefeitura e ali a gente fazia de tudo, marca,
logotipo, cartaz, cartilha, anúncio, um trabalho mais de publicitário.
Mas lá eu desenvolvi uma coisa muito importante, que foram as
cartilhas. Hoje eu me considero capaz, na linguagem do humor gráfico,
do quadrinho, de explicar qualquer coisa pra qualquer um.
As
cartilhas eram em quadrinhos ou com ilustrações?
Umas
eram em quadrinhos em preto e branco, outras eram coloridas com
aquarela e algumas eram com ilustrações entremeadas no texto.
Você
está publicando em alguma revista ou jornal?
No
momento eu colaboro regularmente com duas publicações segmentadas,
o jornal Extra Classe, dos professores da rede privada do Rio
Grande do Sul, que é um jornal muito bem feito tanto editorialmente
quanto graficamente; e colaboro com uma coisa completamente antípoda
pra mim, eu faço a charge da revista da Fecomércio, que é
a federação dos comerciantes. Não tem coisa mais diferente dos
comerciantes do que eu, tudo o que eles pensam eu acho o contrário,
mas mesmo assim eu tenho conseguido fazer uma charge mensal para
eles, às vezes eu até estou gozando a atividade e os caras não se
dão conta e publicam! Mas, tudo bem, tem funcionado. Atualmente
esses são os dois freelancer regulares que eu tenho.
É
difícil o acesso à grande imprensa de Porto Alegre?
Porto
Alegre tem um desequilíbrio muito grande em termo de imprensa; uma
só empresa tem 70% da verba publicitária, o que configura um monopólio
econômico. É a RBS, Rede Brasil Sul de Comunicação, com o jornal
Zero Hora, que tem a repetidora da Globo, os principais
jornais de Porto Alegre e das cidades do interior. O resto é time
pequeno. Durante muito tempo não tinha espaço pro cartum, agora
tem um espaço, mas o espaço já está ocupado, são vagas
limitadas. Eu fiquei muito tempo fora, quando voltei para a planície,
os lugares já estavam ocupados. Dentro da RBS existe uma
incompatibilidade. Na verdade, eles até me convidaram algumas vezes
para trabalhar com eles, mas eles queriam que eu participasse de
programas de televisão, que não é minha praia. Eu achei que minha
opinião ia se diluir muito ali. A atitude deles era algo como
“olha como somos democráticos, a gente chama até os nossos críticos
para trabalhar conosco”. Quer dizer, o que eu ia dizer em um dia
eles iam ter todo um mês para desmentir; na verdade, só ia
coonestar um troço que eu não concordo, então eu não topei
trabalhar desse jeito.
Você
ainda lê quadrinhos? Quais personagens que mais gosta?
Leio
quadrinhos, mas eu sempre tive muito olho crítico. Quando eu era
gurizinho eu ia na banca pra comprar a revista do Disney, mas eu só
comprava se fosse do Pato Donald desenhado por Carl Barks. Como
ninguém assina nas publicações Disney, eu reconhecia no olho
mesmo. Eu já sabia que era um desenhista diferente, embora tudo
estivesse escrito Walt Disney.
Como
é o caso de Zé Carioca, de Canini.
Canini
detonou o esquema, porque o desenho dele é tão característico que
não adiantava não assinar. Com esse olho clínico, eu enjôo logo
uma nova informação nos quadrinhos, eu vejo uma coisa que não
conheço, sei que ali tem uma novidade, me agrada, eu coleciono um
tempo, depois dou por conhecido e parto pra outra.
Tem
alguns caras que estão nas bancas que eu acho maravilhosos. Gosto
muito de alguns trabalhos antigos, como o Lobo Solitário,
que conheço de várias edições, e tem um cara novo que é muito
bom, que é excepcional, que é o desenhista Hiroaki Samura, do Blade,
a lâmina do imortal. É impressionante o que esse cara faz,
produzir aquele número de páginas com a qualidade, com a informação
visual fluente que tem ali. O que ele faz com a anatomia! A história
é totalmente sadomasoquista, aquela coisa de samurai se cortando ao
meio. Ele desenha a figura humana em qualquer corte, em qualquer
posição, e as figuras têm charme; ele consegue sutilmente dar uma
roupagem moderna, embora a história se passe lá na Idade Média
japonesa.
Tem
outros japoneses bons também. Tem alguns cartunistas, como Mike
Mignola, que é um baita desenhista americano com um estilo
totalmente original. Com Hellboy, ele faz uma grande gozação
com toda a mitologia do super-herói. Eu gosto de outros autores,
mas sempre o que vai me atrair numa história em quadrinhos é o bom
desenho. Se o roteiro é legal e o desenho é ruim, como Sandman,
eu já não leio. Acho Sandman uma idéia interessante, como
roteiro, mas o desenho sendo ruim eu já estou fora.
Os
quadrinhos são completamente diferentes das capas, que são
espetaculares.
Isso
é uma sacanagem. Às vezes a revista vem envolta num plástico, você
não consegue folhear e a capa é maravilhosa, mas o desenho lá
dentro é insipiente, pavoroso.
Quais
personagens e autores influenciaram seu trabalho?
Sem
dúvida, Carlos Estevão, que foi um maravilhoso desenhista a bico
de pena, nunca vi alguém superá-lo. Tinha uma revista do começo
da década de 1960, junto com Pererê, chamada Dr. Macarra,
que é uma obra prima em termos de uso do bico de pena e do nanquim.
Ziraldo,
que é um baita desenhista, também me influenciou muito. Além
dele, o gaúcho Canini, que eu lia quando era criança. Minha mãe
era professora e ele desenhava na Revista das Professoras, ele tinha
personagens que eu saía copiando. Corta-corta e Ligeirinho eram
duas formigas que ele desenhava, e eu saía imitando, tentando
desenhar que nem ele. Mas eu nunca tive a capacidade de síntese de
Canini, aquela capacidade de fazer um desenho limpo, com poucos traços
e dizer tudo e ser sedutor. Minha máxima é: tudo o que eu vi e
gostei me influenciou.
Seu
personagem mais conhecido é Rango, criado em 1970. Que
outros trabalhos você destacaria em sua obra?
Tem
muita coisa, especialmente na área dos quadrinhos, que não é
conhecida. Mas agora eu fiquei mais manjado, mais conhecido, porque
finalmente consegui chegar num estágio de fazer o que eu quero com
aquarela.
E
o que é que eu quero com a aquarela? O que ela não pode dar
normalmente. A minha aquarela às vezes tu não notas que é
aquarela, ela chega a um realismo que parece um guache ou até acrílica.
Eu transgrido todas as regras do uso da aquarela pra chegar num
resultado. Um aquarelista ortodoxo espanhol ficaria com sarampo me
vendo trabalhar. O lance de fazer as coisas de primeira, não
retocar, isso não me interessa. Algumas regras eu sigo, eu não uso
o branco, o branco é o papel, que é a regra básica da aquarela,
porque ela é transparente. Não uso preto, também.
Eu
descobri fazendo o Analista de Bagé que a suavidade da
sombra da aquarela é fundamental; eu misturo o azul com marrom pra
fazer o cinza mais ou menos denso e é com isso que eu me livro da
zona escura. Agora tem muita gente gostando de minhas aquarelas.
Na
área dos quadrinhos eu tenho uma grande frustração, porque eu
tenho várias histórias que estão engasgadas porque o mecanismo
profissional brasileiro de edição de quadrinhos é muito
incipiente, não permite que tu trabalhes profissionalmente, que tu
ganhes por aquilo. Quando a gente é guri a gente faz as coisas e
deixa na gaveta, mas não posso mais fazer isso. Se eu desenhar e não
me pagarem, minha tendinite está aumentando, tenho filho pra
sustentar, as contas chegando...
O
que eu tenho de quadrinhos são coisas mal editadas. Eu tenho um
personagem chamado Piru Papão das Mocréias, que é o cara
que só transa mulher feia, que é um trabalho que tem quase 20
anos. Meus quadrinhos sempre foram reações a problemas que eu via
na sociedade. Por exemplo, o Piru é uma reação à
obrigatoriedade do cara ser bonito, ser jovem, não só os homens,
as mulheres também, esse hedonismo maluco que faz toda a mensagem
da publicidade; então eu fiz um cara feio que só gosta de mulher
feia e com isso eu vou mostrando as barbaridades. Este é um de meus
melhores personagens, e está mal editado.
Outro
trabalho meu que considero uma obra prima, comparando comigo mesmo,
chama-se Sottovoce, a morte fala baixo, que foi uma reação
minha à impunidade com que o Brasil passou da ditadura pra pretensa
democracia sem que ninguém fosse responsabilizado por nada. Sottovoce
é uma lenda italiana de um personagem que é um vingador, ele começa
a azarar esses filhos da puta que ficaram impunes, o policial
torturador, o político corrupto etc. Foi uma história que teve uma
tiragem mínima, no entanto ela foi um puta sucesso de público e de
crítica e hoje não existe mais, virou relíquia, eu mesmo só
tenho um exemplar. Tem outra história que eu nunca fiz, chama-se O
Captor, que é a história de um pintor das cavernas na pré-história;
é uma pré-história em quadrinhos que é uma viagem em homenagem
aos desenhistas, mostrando lá na pré-história como já era
importante o cara que conseguia registrar visualmente as coisas,
como era importante seu papel na sociedade que estava se formando.
O
que se passa com as editoras, que não reconhecem esse tipo de
trabalho?
Eu
acho que falta profissionalismo. A impressão que se tem é que tu
tens que desenhar, tu tens que vender, que fazer tudo, que eles estão
sentados lá esperando que tu faças tudo e aí, se tudo der certo,
eles lucram. Eu espero de uma editora que eles façam a parte deles.
Eu entrego pra eles o desenho e eles têm que se virar; a minha
parte eu já fiz. Com sangue, suor e nanquim, quando eu entrego um
desenho, eu já fiz todo meu esforço ali. Eu posso ajudar dando
entrevistas. Faz parte da tarefa do editor armar o esquema pra
vender o produto, pra divulgar etc.
Fome
de Rango
Desde
o início, Rango nos parece um personagem muito bem construído
tanto gráfica quanto ideologicamente. Como você o concebeu?
Novamente,
Rango foi uma reação a um problema que eu estava vendo. No
final dos anos 1960, em plena ditadura militar, eu tinha 18, 19
anos, estava entrando na faculdade de Arquitetura, morava no centro
de Porto Alegre, atravessava a cidade e via o menor abandonado. No
bairro em que eu morava tinha um monte de bebum pela rua,
mendigo, marginal, a escória da sociedade. O discurso social sob
censura era que o Brasil estava se desenvolvendo, era “corrente
pra frente”, “90 milhões em ação”, “ame-o ou deixe-o”.
Na
verdade, o que tinha acontecido foi que houve uma brutal injeção
de capital que criou uma dívida externa cavalar, no tempo de Delfim
Neto, e também uma brutal repressão ao trabalho no Brasil. Não se
podia reivindicar nada! Então ficou como eles queriam pra
desenvolver a indústria: tudo para a geração de riqueza, mas para
a distribuição, não. E eu via que essa miséria toda era
resultado dessa política; ninguém dizia nada porque havia censura.
Desse modo eu usei a minha linguagem, que era o humor, pra dizer o
que era óbvio. Ninguém podia pregar revolução nem nada porque se
ia em cana, mas dizer que tinha miséria já era uma revolução,
porque era proibido dizer isso na época.
Em
termos gráficos, parece que Rango
já nasceu maduro. Não houve uma transição, como ocorre com todo
personagem?
No
livro do Rango que comemora os 35 anos (lançado pela
L&PM em 2005) tu vais ver que houve uma grande mudança gráfica.
É que nem criança, quando tu acompanhas todo dia tu não notas as
mudanças, mas houve sim. Quando eu olho os primeiros desenhos...! Rango
é um personagem que, nesse sentido, é vivo, ele cresceu, os próprios
temas se ampliaram, não fala mais só da fome, ele passou a falar
da fome e de suas causas e suas conseqüências.
Em
quantos jornais e revistas Rango foi publicado?
Em
muitos jornais, perdi a conta porque ele foi distribuído pela
Pacatatu (distribuidora dirigida por Rick Goodwin, que deu seqüência
à Agência Funarte). O Rango teve uma breve carreira
internacional, ele saiu no Charlie Mensuel, de Paris. Na
apresentação de Rango, Wolinski dizia que tinha que ter estômago
pra agüentar. Pro francês era um escândalo, um cara faminto
vivendo no meio do lixo, com a barriga roncando. Ele também saiu
numa revista no México; e em Buenos Aires tem um site de um
fanzineiro que gosta do Rango e o publica lá. Agora, com a
internet, nem sei por onde ele anda, embora eu não tenha site. No
Orkut tem os fãs do Rango. É algo que sai de seu controle
total.
Você
falou que Rango foi distribuído pela Pacatatu. A agência
ainda está em atividade? Rango ainda é distribuído?
Rick
Goodwin, que dirige a Pacatatu, é uma pessoa maravilhosa, sou amigo
dele; sem preconceito, acho que ele é um carioca trabalhador. Na
verdade, ele é americano, o pai dele é um pastor protestante
americano, tem toda essa ética do trabalho. E Rick é um cara esforçado,
montou a agência, mas funcionalmente tem muitos problemas com os
contratos com os jornais. Então o Rango virou bóia-fria,
sai de vez em quando. Eu nunca consegui, dentro da Pacatatu chegar
numa situação mais ou menos confortável profissionalmente. O Rango
continua fazendo parte do catálogo da Pacatatu, mas não está
saindo em lugar nenhum. A última vez foi no JB (Jornal do
Brasil, em 2005), por conta de Ziraldo, que botou lá os
cartunistas. O JB é outra grande esculhambação, com
problemas financeiros, indefinições editoriais, que acabou
prejudicando a gente.
Para
minha geração, Rango tornou-se um símbolo da reação à
ditadura e uma crítica feroz ao capitalismo. Você teve problemas
políticos com o personagem?
Sim.
O Pasquim foi tirado das bancas por causa de uma tira do Rango
e nós fomos processados, Jaguar e eu. Daí a três anos o processo
foi arquivado porque era uma besteira tão grande! O processo podia
ser pela justiça civil ou justiça militar, lei de imprensa ou lei
de segurança nacional. Quando chegou na justiça civil o promotor
disse que pela lei aquilo não tinha nada, não; mandaram para o
outro, que reconheceu que era uma bobagem aquilo ali. O artigo da
lei que queriam nos enquadrar dizia: “receber dinheiro de potência
estrangeira para denegrir o Brasil”. Era o “ouro de Moscou”. E
o Pasquim gozava dizendo que “quem nos paga é o Idi Amin,
é o ouro de Uganda”. O promotor viu que ia passar vergonha e
ninguém quis nos processar. Então se deu o chamado “conflito
negativo de autoria”, nenhuma instância quer ser autora do
processo. E foi arquivado. Mas nós tivemos que depor na polícia
federal. Vieram policiais pagos com nosso dinheiro do Rio a Porto
Alegre pra me interrogar; um troço ridículo! Eles queriam dar uma
prensa no Pasquim porque o Pasquim incomodava.
O
conteúdo político de Rango não lhe trouxe nenhum estigma?
Trouxe.
Embora não seja explícito, já durante a ditadura a imprensa foi
se adaptando à censura, sobrepondo ao dever de informar e refletir
a sociedade os seus interesses comerciais; ela é muito mais empresa
do que imprensa.
Não
só eu, mas também outros, éramos artistas que tínhamos uma posição
incômoda pra eles, e passamos a ser escanteados. Eu pedi demissão
do jornal Folha da Manhã, de Porto Alegre, onde apareceu o Rango.
Lá pelas tantas houve uma espécie de “golpe de estado” dentro
do jornal. Toda a equipe que fazia o jornal com uma postura
antiditadura e a favor da informação foi defenestrada, mas eu não
era pra sair, porque eu era ponto de venda para o jornal. Eu pedi
demissão em protesto, aí eu fiz parte de uma lista negra durante
um tempo e nunca mais fui citado nos jornais. Fazíamos uma exposição
com dez caras, citavam o nome dos nove e outros; “outros” era
eu. Hoje não há mais isso, quando eu ganho um prêmio os caras até
se gabam por eu ter sido chargista da Folha da Manhã.
Foi
com a publicação de um livro de Rango que surgiu a editora
L&PM, de Porto Alegre. O que isso representou em sua carreira?
A
L&PM é a continuação de uma outra empresa, a Ciclo Cinco
Propaganda, em que Ivan Pinheiro Machado, o PM da L&PM, Paulo
Lima e eu, éramos sócios. Era uma agência de propaganda que a
gente, com 20 anos, criou pra ver se conseguia se profissionalizar
em alguma coisa. Eu e Ivan estudávamos Arquitetura e Lima estudava
Administração. Nós fundamos a agência com mais dois sócios, que
em seguida caíram fora. Mas eu não queria ser publicitário, eu
queria era desenhar e publicar em jornal. Então, quando eu consegui
um emprego na Folha da Manhã, em 1972, eu decidi sair da agência.
O problema é que eu era o departamento de arte da agência.
Nesse
período, o Rango começou a sair no jornal, fez sucesso e
eles tiveram a idéia de montar a editora. Um dia me chamaram pra
propor a transformação da agência de propaganda em editora e o
primeiro livro que pretendiam fazer era com as tiras do Rango.
Eu com meu tino comercial legendário, falei que tudo bem, mas desde
que eu não fosse mais sócio. Eu podia estar com eles até hoje,
mas deixei de ser sócio da editora que fez mais sucesso nas duas décadas
seguintes.
O
Rango nº 1, em 1974, um livro de quadrinhos, foi pela
primeira vez o livro mais vendido da tradicional Feira do Livro de
Porto Alegre. Um livro que Érico Veríssimo teve a generosidade de
fazer um prefácio maravilhoso, o que representou uma atitude política
dele, em vista da censura da época.
A
falta de interesse dos jornais em publicar quadrinhos desestimula a
criação. Você continua produzindo Rango?
Não.
O bóia-fria está em recesso, está na entressafra. Eu tenho em
torno de quatro mil tiras do Rango, e o pior é que elas estão
atuais.
Atualmente
as tiras são publicadas em cores na imprensa diária, mas você
publicou Rango no Jornal do Brasil em preto e branco. Isso
foi uma postura estética sua?
As
tiras eram antigas. Se eu fosse produzir novas tiras e a proposta
fosse fazê-las com cor eu ia ter que dar um jeito. Ziraldo tentou
colori-las, fez algumas com lápis de cor, mas não funcionou, então
decidimos publicar em preto e branco mesmo. Elas foram feitas para
serem publicadas em preto e branco. Seria a mesma coisa que colorir
um filme, fica uma coisa artificial. A bem da verdade, nem sei que
cor tem o Rango.
Mais
quadrinhos
Além
de Rango, você fez histórias em quadrinhos longas, algumas com
adaptações e parcerias, como o Analista de Bagé. Como foi
fazer esse trabalho com Luís Fernando Veríssimo?
As
crônicas do Analista de Bagé saíram em 1981 e foi o maior
sucesso editorial brasileiro até aquele momento. Eles fizeram em
seguida o segundo volume com novas crônicas, Outras histórias
do Analista de Bagé. A L&PM tinha uma linha de quadrinhos,
eles publicavam inclusive Moebius e outros quadrinhos europeus;
publicaram as histórias clássicas de Batman e Super-Homem,
assim como o Rango. Então eles tiveram a idéia de pegar os
primeiros livros do Analista e quadrinizar. Mas eu
quadrinizei histórias que já tinham saído em texto, não eram
histórias novas ou especiais, eu fiz o roteiro, a decupagem.
O álbum O Analista de Bagé, em preto e branco, saiu em
1983.
Com
base nessa experiência, Luís Fernando, que colaborava com a Playboy,
recebeu um convite pra gente fazer o Analista na revista, só
que com histórias inéditas. De 1983 a 1990, durante sete anos, a
gente publicou mensalmente uma página em cores na Playboy,
com histórias especialmente feitas para isso. Foi aí que eu me
amansei no uso da aquarela.
Eu
comecei usando ecoline e nanquim, mas eu achava que a ecoline era
muito escandalosa. Então passei para aquarela e nanquim, mas o
nanquim ficava pedado demais para a aquarela; aí passei a usar
nanquim sépia, marrom, com aquarela. Melhorou, mas ainda era um traço
muito agressivo para a leveza da aquarela. Finalmente parti para o lápis
grafite e aquarela, que é o ideal gráfico do Analista.
Quanto
tempo durou a parceria?
Foram
sete anos de colaboração com Luís Fernando. Ele é um cara
impressionante, de pouquíssimas palavras, mas que te dá uma enorme
liberdade pra trabalhar. O roteiro que ele me entregava era uma
folha de ofício onde dizia: “Um homem velho: ah, doutor, não sei
o que está acontecendo comigo, eu brochei...” e por aí vai.
“Analista: mas, quantas consegues...” E aí vem aquele papo. Era
assim o roteiro, quatro diálogos. Ele não descrevia as
personagens, se o homem velho era gordo ou magro. Então eu
inventava, eu dirigia o “filme” com base nisso.
Um
dia eu descobri, lendo uma das primeiras histórias do Analista,
que Luís falava nas suíças dele. Só aí percebi que o personagem
tem suíças, e não barba, como eu desenhei. Minha imagem do Analista
tem uma barbona desse tamanho, inspirada numa representação do gaúcho
que um colega, (o jornalista e escritor) Fraga, fez pra ir num
churrasco. Ele foi tão bem fantasiado que ninguém o reconheceu.
Aquela sobrancelha única do Analista está na caricatura do
Fraga. Esse visual do gaúcho está na capa do primeiro livro do Analista
de Bagé, que é uma foto do Fraga. O paciente na capa
desse livro é um outro cartunista, o Juska, que não deixa de ser
meio louco. Toda a produção foi feita por Roberto Silva, nosso
companheiro que está morando aqui em João Pessoa, que foi o cara
que inventou visualmente aquela capa.
Eu
me baseei nesse visual pra fazer o quadrinho. Na cabeça de Luís
Fernando o Analista nunca teve barba, mas ele nunca disse
nada. Quando lhe perguntei porque ele não falou nada, ele disse que
estava bom assim, que podia deixar dessa forma. Esse é Luís
Fernando.
Como
você vê os fanzines e outras publicações independentes?
Por
um lado, acho que são um respiro, cumprem o papel de publicar quem
está chegando, o que é uma coisa fundamental. Quem quer trabalhar
com mídia tem que ver o resultado de seu trabalho impresso, tem que
voltar pra si os defeitos e os acertos, tem que ver a reação do
leitor. Isso faz parte da formação do grafismo. O fanzine cumpre
esse papel, embora de forma segmentada, de forma precária.
Por
outro lado, eu acho que ele é um sintoma de um defeito. O fanzine
pode existir, mas ele não pode ser a única solução pra quem está
querendo publicar, até porque é impossível tu te profissionalizar
no fanzine, não tem espaço pra todo mundo querer se
profissionalizar como fanzineiro. Tinha que ter era canais para o
cara poder falar para o grande público e dar seu depoimento artístico
do país em que ele está vivendo.
Em
que medida os meios eletrônicos podem ter uma interface com os
quadrinhos?
Acho
que a internet é uma poderosa mídia que ainda não mostrou toda
sua abrangência, mas que está mudando radicalmente até a tua
postura individual. Eu, por exemplo, não tenho site, mas vou ter
que ter. Sou um aquarelista, então eu ia fazer um cartão com esses
termos: Edgar Vasques, desenhos feitos à mão. Eu sou um cara que
desenha à mão, não desenho com o mouse. Mas isso é uma
realidade, tem coisas muito legais feitas com computador. Já quase
passou uma geração de adaptação, de os caras achar que o
computador resolvia tudo, e aí faziam o que Roberto Silva chamou de
“aleijados bem vestidos”, que é o desenho todo defeituoso, mas
todo lambidão, bacana, colorido, com luzes, usando os recursos do
Photoshop e deformações. Essa geração já está passando, já
tem uma gurizada que já entendeu que o computador é um
instrumento, mas não um fundamento. Está chegando a hora em que o
computador está se transformando realmente numa vantagem e não num
defeito.
Você
acredita que é possível a formação de um mercado de quadrinhos
brasileiros?
Claro
que é possível! Temos desenhistas de alta qualidade, roteiristas
menos, mas já estamos começando a ter, e temos o público. Então,
o que é que falta? Falta o que tu está chamando de mercado, uma
intermediação inteligente, organizada e séria que junte essa
produção com aquela demanda. Agora, como fazer isso, faz 38 anos
que eu estou querendo saber.
Quais
são seus projetos de quadrinhos e artes visuais?
Meu
projeto nesse momento é compor um orçamento no fim do mês. Como
fazer isso, aí sim, tenho muitas idéias. Por exemplo, tem uma história
de morcegos, que eu contava para meus filhos dormir durante seis
anos que eu nunca escrevi nem desenhei e descobri que é uma história
que tem empatia. Então, estou pensando em entrar na literatura
infantil por aí, inclusive fazer uma coisa meio experimental.
Mas
o problema é que, na situação de penúria profissional em que
trabalha do grafista hoje, e a minha especialmente, tu não tens
tempo de investir nas idéias, tu tens que pagar as contas no fim do
mês, então tu vais fazer qualquer coisa que te encomendem. Na
verdade eu não faço qualquer coisa, eu prefiro ficar devendo umas
contas, tem uns limites éticos aí. Eu trabalho com quem eu acho
que não vai me conduzir para becos que eu não quero penetrar.
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